Imutável
Muito se falou acerca da NATO e da sua cimeira: de “Defesa” e “Segurança”, das “ameaças” russa e até chinesa, da “inevitabilidade” de gastar mais e mais em armamentos… Houve quem tenha referido as tensões entre os EUA e os aliados europeus – mas nada, garantem, que retire brilho à “maior e mais bem sucedida aliança militar do planeta”, como alguém lhe chamou.
De tudo o que se disse e escreveu sobressai o artigo de Aline Hall de Beauvink no Diário de Notícias (15.7), centrado na posição do PCP. Investigadora, professora e monárquica, Beauvink salienta a imutabilidade dessa mesma posição, apesar das alterações na ordem internacional, e acusa o Partido de denunciar a “escalada militar” (que põe entre aspas, claro) da NATO ignorando a sua causa: «Não foi a NATO que anexou a Crimeia em 2014, nem que invadiu a Ucrânia em 2022. Confundir causa e consequência é inverter a cronologia dos acontecimentos», argumenta. Considera ainda uma “falsa alternativa” a opção entre gastar em armamento e investir em Saúde, Educação e Habitação e termina com a ideia de que «há uma diferença essencial entre desejar a paz e garantir as condições para a preservar». Pelo meio, lá reconhece eventuais “erros” (é assim que denomina a destruição de países) na actuação da NATO no Afeganistão ou na Líbia…
Rico em lugares-comuns, mais reveladores das concepções da autora do que do visado, o texto peca (no mínimo) por uma absoluta falta de rigor. Cronologia dos acontecimentos? Vamos a ela – e não, não começa nem em 2022 nem em 2014. Há que recuar pelo menos a 1949, quando a criação da NATO interrompeu a constituição de um sistema de segurança colectiva assente nas Nações Unidas e reinstituiu a lógica de blocos militares, que tão dramáticos efeitos produzira na Primeira Guerra Mundial. O facto de a NATO (que integrou na sua fundação as principais potências coloniais da época e a ditadura fascista portuguesa) ter sido criada seis anos ANTES do Pacto de Varsóvia e de ter tido como objectivo central – confessado pelo seu primeiro Secretário-Geral, o britânico Hastings Ismay – garantir a presença militar norte-americana na Europa, serão também não mais do que pormenores para a autora.
Isso e a corrida aos armamentos, o aumento significativo das despesas militares e os sucessivos alargamentos até às fronteiras da Rússia (apesar dos compromissos em sentido contrário), processos iniciados antes, muito antes, de 2014 – em 1999, 2004, 2009… – e que são causas e não consequências da tragédia que se vive no Leste da Europa, para a qual o PCP vinha alertando desde há anos: deve ser esta a “imutabilidade” de que fala. Quanto aos gastos, é o próprio Rutte (e não o PCP) quem o afirma: o dinheiro para as armas sairá da Saúde e das Reformas…
Sim, não basta falar de paz é preciso preservá-la e lutar por ela. Como? Dando combate ao imperialismo, que a gera. Vem connosco, Aline?




