Imutável

Gustavo Carneiro

Muito se falou acerca da NATO e da sua cimeira: de “Defesa” e “Segurança”, das “ameaças” russa e até chinesa, da “inevitabilidade” de gastar mais e mais em armamentos… Houve quem tenha referido as tensões entre os EUA e os aliados europeus – mas nada, garantem, que retire brilho à “maior e mais bem sucedida aliança militar do planeta”, como alguém lhe chamou.

De tudo o que se disse e escreveu sobressai o artigo de Aline Hall de Beauvink no Diário de Notícias (15.7), centrado na posição do PCP. Investigadora, professora e monárquica, Beauvink salienta a imutabilidade dessa mesma posição, apesar das alterações na ordem internacional, e acusa o Partido de denunciar a “escalada militar” (que põe entre aspas, claro) da NATO ignorando a sua causa: «Não foi a NATO que anexou a Crimeia em 2014, nem que invadiu a Ucrânia em 2022. Confundir causa e consequência é inverter a cronologia dos acontecimentos», argumenta. Considera ainda uma “falsa alternativa” a opção entre gastar em armamento e investir em Saúde, Educação e Habitação e termina com a ideia de que «há uma diferença essencial entre desejar a paz e garantir as condições para a preservar». Pelo meio, lá reconhece eventuais “erros” (é assim que denomina a destruição de países) na actuação da NATO no Afeganistão ou na Líbia…

Rico em lugares-comuns, mais reveladores das concepções da autora do que do visado, o texto peca (no mínimo) por uma absoluta falta de rigor. Cronologia dos acontecimentos? Vamos a ela – e não, não começa nem em 2022 nem em 2014. Há que recuar pelo menos a 1949, quando a criação da NATO interrompeu a constituição de um sistema de segurança colectiva assente nas Nações Unidas e reinstituiu a lógica de blocos militares, que tão dramáticos efeitos produzira na Primeira Guerra Mundial. O facto de a NATO (que integrou na sua fundação as principais potências coloniais da época e a ditadura fascista portuguesa) ter sido criada seis anos ANTES do Pacto de Varsóvia e de ter tido como objectivo central – confessado pelo seu primeiro Secretário-Geral, o britânico Hastings Ismay – garantir a presença militar norte-americana na Europa, serão também não mais do que pormenores para a autora.

Isso e a corrida aos armamentos, o aumento significativo das despesas militares e os sucessivos alargamentos até às fronteiras da Rússia (apesar dos compromissos em sentido contrário), processos iniciados antes, muito antes, de 2014 – em 1999, 2004, 2009… – e que são causas e não consequências da tragédia que se vive no Leste da Europa, para a qual o PCP vinha alertando desde há anos: deve ser esta a “imutabilidade” de que fala. Quanto aos gastos, é o próprio Rutte (e não o PCP) quem o afirma: o dinheiro para as armas sairá da Saúde e das Reformas…

Sim, não basta falar de paz é preciso preservá-la e lutar por ela. Como? Dando combate ao imperialismo, que a gera. Vem connosco, Aline?



Mais artigos de: Opinião

O caos nos exames nacionais é da responsabilidade do Governo

No momento em que escrevo, os problemas em torno dos exames nacionais estão longe de estarem resolvidos, quiçá terão novos desenvolvimentos que confirmam, para lá de uma opção política errada, a imprudência e a precipitação de um ministro e de um Governo na adopção de um novo procedimento de...

IA na encruzilhada mundial

«Os EUA devem agir rapidamente para conter o crescente progresso tecnológico da China». A citação provém de um painel do Congresso dedicado à inteligência artificial (IA) e competição EUA/China, realizado a semana passada. Na ocasião voltou a soar o alerta que Washington tornou um axioma da confrontação com Pequim: a...

Três notas sobre o Estado

A propósito do debate sobre o estado da nação, ouvimos o discurso de Luís Montenegro e quase nem acreditávamos. Os principais problemas do País ficaram arredados da conversa do primeiro-ministro, que traçou da realidade uma imagem que deve ter mandado apurar na inteligência artificial, para se adequar ao retrato de um...

O “Sistema” e os “Camilos”

Isto anda cheio de Camilos (meninos da nobreza em latim), neste caso são “fazedores de opinião”, ideólogos e aproveitadores do sistema do capital financeiro e das suas vicissitudes, que se copiam e complementam no espaço mediático e político – simples mercenários ou militantes em causa própria – em defesa dos grandes...

Um facínora

A aliança Israel/EUA acumula crimes de guerra. Escolas, universidades, centros de saúde, hospitais são alvos sistemáticos. Em Gaza trata-se de arrasar tudo – 91% das escolas e a totalidade das universidades atingidas (Maio 2025), 735 instalações de saúde (Junho 2025) –; no Irão a barbárie é especificamente terrorista. Do...