Vítimas do flagelo social
Retrato do desemprego feminino
O Movimento Democrático de Mulheres realizou, no âmbito do Projecto «Empreender Novos Caminhos para a Igualdade», um estudo com o objectivo de contribuir para uma melhor compreensão e reconhecimento da situação pessoal e familiar das mulheres desempregas de Aveiro, a braços com complicadas situações económicas, familiares e pessoais.
Aveiro, o quinto distrito com maior desemprego no País, registava, em Junho de 2005, 18 797 mulheres desempregadas, ou seja, 60 por cento do total do grupo de desempregados. Com uma mão-de-obra intensiva, e altamente feminizada, são as mulheres trabalhadoras que se ressentem particularmente do encerramento de unidades produtivas do distrito, de deslocalizações de grandes multinacionais e, em geral, da desvalorização social do seu trabalho em sectores industriais predominantes, como o calçado, os têxteis, as indústrias eléctricas e também no comércio.
«Procurámos “organizar” o nosso estudo sobre a realidade deste distrito, tendo em conta que as situações de desemprego são multidimensionais, particulares e atingem especialmente as mulheres. Construímos um inquérito que aborda, ainda que de forma não exaustiva, as situações familiares e económicas, procurando também conhecer a perspectiva pessoal sobre a situação, porque, partindo da nossa experiência de mulheres, sabíamos como as mulheres em situações de desemprego são seriamente afectadas, nas diversas esferas da vida. Habituadas a contribuir para a economia doméstica vêem-se, sem emprego, em situações de grande dependência, em grande parte dos casos, não perspectivando qualquer futuro profissional», lê-se, no estudo.
«Também nos interessou conhecer as condições que tinham conduzido ao desemprego, por nos parecer que muitos dos casos concretizavam processos de despedimentos complexos e situações precárias, como deslocalizações, lay-offs e encerramento total de unidades fabris, altamente desgastantes para as trabalhadoras», continua o documento.
Para este estudo, foram realizados 469 questionários de aplicação directa pela entrevistadora Maria João Teixeira nos centros de emprego de Aveiro e São João da Madeira. As mulheres foram entrevistadas aleatoriamente, o que permitiu abarcar um extenso leque de sectores de actividade.
Esta amostra corresponde a cerca de três por cento da população e foi calculada tendo em conta o número total de desempregados no distrito de Aveiro em Dezembro de 2004, 18153. «A obtenção de respostas válidas foi uma preocupação constante ao longo deste trabalho, e desta forma, o inquérito foi construído de forma a abordar as questões, o mais concretamente possível, sempre com leques de resposta alargados, para que as inquiridas encontrassem a resposta que descrevesse a sua situação. O estudo que aqui apresentamos dá conta das principais características deste grupo de mulheres, resultante da leitura estatística dos resultados dos inquéritos», concluiu-se.

Mulheres trabalhadoras

Mais especificamente, segundo o estudo, as mulheres entrevistadas compõem um grupo muito heterogéneo ao nível etário, encontrando-se dois grupos com peso relativamente mais elevado, o dos 21 aos 30 anos, com cerca de 40 por cento, e o dos 41 aos 55 anos, com 25 por cento. Estes grupos têm uma relação diferente com o trabalho, pela sua escolaridade, percurso de trabalho e de vida.
Relativamente aos níveis escolares, os mais frequentes são o primário ou o básico, com uma relação inversamente proporcional à idade. Um aspecto que merece atenção é a presença de um grupo com peso significativo de mulheres licenciadas, demonstrando, o peso que este grupo assume, na sua grande parte constituído por jovens mulheres, que não encontram lugar no mercado de trabalho.
No que diz respeito ao seu estado civil, as entrevistadas concentram-se essencialmente em duas categorias: casadas ou em união de facto com filhos, ou solteiras sem filhos. O estado civil relaciona-se com a idade e a existência ou não de filhos com o estado civil. Assim, a maior parte das inquiridas são casadas e têm filhos (49,4 por cento), ou são solteiras e não têm filhos (27,3 por cento). É também significativo o facto de 12,9 por cento constituírem núcleos familiares monoparentais.
O grupo tem em média 14,9 anos de trabalho e a imensa maioria (90 por cento) está numa situação de desemprego formalizado pela entidade patronal, enquanto que as restantes desconheciam o seu estatuto profissional.
As áreas de trabalho de que provém, para cerca de metade das inquiridas, são as diversas indústrias implantadas no distrito (49, 7 por cento), onde se pode observar maior peso do sector do calçado e do metalúrgico. O comércio é o sector que se segue, onde se encontra principalmente recepcionistas, empregadas de balcão ou de escritório (19,7 por cento).

Precariedade contratual

No que se refere ao sector de actividade, segundo o mesmo estudo, reconhece-se traços de «envelhecimento» da industria utilizando a relação inversa entre a idade e a escolaridade. Os sectores do calçado e do têxtil, continuam, no entanto, a empregar números elevados de jovens mulheres.
Observando o quadro «idade/relação com empregador» podemos ver que cerca de metade da amostra na altura do seu despedimento estava em regime de contrato, e que as jovens mulheres constituem a sua grande parte. Neste sentido pode-se concluir que a crescente precarização das relações de trabalho, que se têm manifestado no País e no distrito, de forma clara e impositiva, é uma realidade inadmissível, com o ingresso ou reingresso no mercado de trabalho inevitavelmente sujeitos à precariedade contratual.
De referir, é ainda o valor de 68 por cento das mulheres, neste distrito, que já passou por uma situação de despedimento. «As razões que trouxeram as nossas inquiridas ao desemprego remetem-nos novamente para a questão da precariedade do emprego. A maior parcela de mulheres está desempregado porque não viu o seu contrato de trabalho renovado», denuncia o estudo, referindo, ainda, que «18,3 por cento das desempregadas que são provenientes de falências de empresas representam cerca de um quinto do conjunto. As falências têm constituído situações altamente desgastantes para as trabalhadoras que são confrontadas com o encerramento das empresas sem qualquer aviso prévio, desconhecendo muitas vezes o processo que as conduziu àquela situação».

Discriminação salarial

O estudo fala ainda da discriminação salarial entre mulheres e homens, já que 32,8 por cento das mulheres não auferem salários similares aos dos homens, desempenhando trabalho igual. «Constatámos que parte significativa das inquiridas, 29,57 por cento, só tinham mulheres como colegas de trabalho, o que nos parece indiciar uma tendência para a continuidade da divisão sexual do trabalho. Num conjunto onde o operariado tem muito peso, a industria do distrito parece insistir em atitudes discriminatórias para com os seus trabalhadores, em flagrante desrespeito pela legislação», continua o documento, referindo ainda «que 67,5 por cento das trabalhadoras inquiridas não tinham recebido os valores devidos pelo despedimento ou tinham salários em atraso, provando a forma complexa como estes processos de despedimento, na maior parte dos casos, parecem ocorrer, culminando em situações dramáticas para as trabalhadoras e para as famílias».
Relativamente ao mau ambiente familiar, o marido e os filhos são os mais apontados como os elementos do agregado familiar com quem têm mais conflitos. Tais conflitos são normalmente descritos como discussões motivadas pela impaciência e a ansiedade, enquanto as relações com os pais foram normalmente descritas como pacificas.
Cerca de 80 por cento das inquiridas afirma ter o apoio da sua família, que se traduz, em percentagens similares, 43 por cento, em apoio financeiro e emocional. «O apoio da família parece fundamental, por em muitos casos constituir um apoio financeiro directo, ou em bens alimentares, altamente necessário para a subsistência da família, mas também o apoio emocional, não material, é muito valorizado pelas entrevistadas», constata-se.
As jovens são as que mais respondem que o desemprego não afectou o seu ambiente familiar, por serem jovens que vivem com os pais e, tal como já referido, na sua maioria descrevem a sua situação como pacifica. As mulheres, entre os 36 e os 40 anos, e entre os 26 e os 30 anos são as que se afirmam como as mais afectadas pelo desemprego, debatendo-se com a vontade de constituir família, de preservar a sua independência económica, ou de fazer face à educação dos filhos.
As famílias monoparentais (solteiras com filhos/divorciadas, separadas com filhos) são as que afirmam terem maiores dificuldades económicas, com sérios problemas de sobrevivência porque estão privadas do único rendimento mensal de que dispunham.
Segundo o estudo do MDM, cerca de 11 por cento das entrevistadas têm o cônjuge/companheiro também desempregado e cerca de 80 por cento não estava a receber subsídio de desemprego. Estes valores são inequivocamente indicadores das previsões em que vivem muitas famílias no distrito de Aveiro. Os casos de despedimento de ambos os cônjuges, relatado com muita frequência, deve-se ao facto de que ambos trabalhavam na mesma fábrica e foram despedidos simultaneamente.

Necessidades económicas

As respostas relacionadas com a formação profissional, bem como a participação das trabalhadoras em movimentos sindicais ou outras organizações, são maioritariamente negativas, retractando um grupo de mulheres pouco participativas, e com níveis de formação profissional ainda baixos. Quanto a processos formativos, 62 por cento nunca tinha frequentado nenhuma formação.
Tendo em conta o contexto adverso em que as trabalhadoras se encontram, podemos ver que uma imensa maioria, 72,2 por cento, nunca pediu apoio a um sindicato ou a outra organização, provando a clara dificuldade das trabalhadoras em chegar a este tipo de organizações e efectivar a sua participação.
Quanto às motivações para o seu trabalho, as questões económicas ainda se sobrepõem à realização pessoal, revelando, no entanto, que 22 por cento já referem como prioritário o significado da valorização pessoal.
Relativamente ao seu futuro profissional, a imensa maioria afirma esperar emprego, embora este optimismo se manifeste mais no grupo das jovens. A partir dos 45 anos, manifestam as maiores dúvidas quanto à possibilidade do seu reingresso no mercado de trabalho.


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