• Pedro Campos

Irão ou não Irão?
Os que viam (ou queriam ver) grandes diferenças entre Bush II e Barack Obama devem começar a deitar contas à vida e a assumir as realidades, que nem sempre coincidem com os desejos. Para Bush II era nítido que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça (ADM) e por essa razão era necessário invadir o Iraque e salvar o mundo dessa ameaça. Blair e Aznar também não tinham dúvidas de nada. O mesmo sucedeu com outros governos europeus e Portugal teve o muito duvidoso privilégio de que tivesse partido dos Açores o acordo – realmente a decisão foi tomada muito antes – de invadir (outra vez) o Iraque.
Os resultados são já sobejamente conhecidos. As tais ADM nunca apareceram – o Iraque era um país profundamente debilitado por vários anos de bloqueio orquestrado por Washington e estava muito longe de ser um perigo – e os delinquentes da política internacional justificaram as várias centenas de milhares de mortos iraquianos e a destruição quase total da infraestrutura do país com a desculpa, a nova desculpa, de que tudo fora com a sublime intenção de levar a democracia a esse país do Médio Oriente (na Arábia Saudita a democracia floresce até nas areias do deserto!).
Do petróleo, a verdadeira razão da guerra, não falaram nunca até porque a verdade estava à vista de todos. Tudo se passou como se «os salvadores do mundo ocidental» fossem capazes de tomar a mesma decisão de terrorismo de Estado se o Iraque em vez de petróleo aos pontapés tivesse tulipas no meio das suas areias escaldantes!
Agora é o Irão e as alegadas armas nucleares. E começam a subir de tom as declarações, com as aparentes contradições, estrategicamente controladas, de que há armas nucleares e de que não há armas nucleares. Curiosamente, elas aparecem poucos dias depois de russos e iranianos porem em funcionamento, de modo experimental, a primeira fábrica nuclear, localizada por certo numa cidade que se chama Bush...erhr! Contudo, não se pense que se trata de uma instalação nuclear que corresponda a um projecto recente. Os primeiros trabalhos datam de há 34 anos, quando o Irão não fazia parte do eixo do mal. Era, pelo contrário, um país bem comportado e quem iniciou a construção foi uma empresa alemã... em plena era do Xá!

Mudam-se os tempos...

O almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos, há menos de um ano – quando Bush II já tinha perdido todo o crédito internacional debitado pelos seus pares – mostrava-se partidário do diálogo com Teerão e defendia acções exclusivamente não-militares. Agora parece estar a mudar o tom da conversa. Em declarações recentes à CNN afirmou que « francamente sim, pensamos» que o Irão tem material suficiente para fabricar uma bomba atómica. E foi mais longe dizendo que há muito pensa «que o Irão tenha armas nucleares» e que tal é «um panorama mau, muito mau para a região e o mundo».
Quem lançou a primeira (e única) agressão atómica da história – não uma mas duas vezes – acha que só ele e os seus Estados clientes – incluindo o Estado genocida e teocrático de Israel – têm direito a esse poder! Não há dúvida de que o imperialismo, sem importar a cor de quem manda, mantém sempre a sua natureza agressiva.
Contudo, menos de 24 horas depois, aparece outra figura graúda do império a dizer o contrário. Robert Gate, secretário da Defesa do governo de Obama, diz que não. Que o Irão «não está perto de ter uma arma neste momento». A declaração é feita a uma televisão da concorrência, a NBC. Um puxa para um lado, o outro (aparentemente) para o outro, mas finalmente empurram ambos a mesma direcção. É o comportamento típico do império. Ali não há contradições reais e se as houver... o quê? Vejamos.
Quando o Xá mandava e fazia as piores tropelias com o apoio de Washington, o secretário de Estado era Henry Kissinger. O autor intelectual do golpe de Estado contra Salvador Allende mantinha então que a «introdução de energia nuclear» era importante para cobrir «as crescentes necessidades da economia iraniana», e explicava que essa opção libertava «as restantes reservas de petróleo para a exportação ou transformação em produtos petroquímicos». Bem pensado, poderia dizer-se. Mas... mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. Hoje «para um produtor petrolífero como o Irão, a energia nuclear constitui um desperdício de recursos». Quem o diz? Kissinger! Há nisto alguma contradição? O mesmo Kissinger responde. Antes o Irão «era um país aliado (...) de modo que, em consequência, tinha uma genuína necessidade de energia nuclear».
Está tudo dito, não está?


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