• Maurício Miguel

Comentário
Valorizar para transformar!
Trinta e cinco anos de Reforma Agrária. Muitos jovens com a minha idade são filhos dessa grande realização da Revolução de Abril; filhos desse tempo de heróis sem nome que se lançaram no desafio colectivo de serem sujeitos da história, desafiando a estrutura agrária existente e a própria natureza. Este lançar da enxada à terra pelos trabalhadores do Sul não teria sido possível sem a força que lhes impeliu o seu Partido: o Partido Comunista Português. Esses foram tempos de grandes lutas para vencer os agrários e a herança fascista que ainda sobrevivia nas estruturas do Estado. Sobre o lema de «A Terra a Quem a Trabalha», empreenderam-se duras batalhas para vencer mentalidades enraizadas em milhares de anos de exploração do povo trabalhador, de muita fome, de muitos suores, de muito olhar para a chuva e para o frio sem protecção. Deitaram-se sementes à terra onde tal nunca tinha sido feito, forjaram-se barragens onde antes existiam ribeiros, construíram-se charcos, improvisaram-se máquinas e adaptaram-se outras vindas da URSS ou de outros países socialistas do Leste europeu. As aldeias, vilas e cidades do Sul viram um corrupio nunca antes visto: tractores, camionetas carregadas de homens e mulheres que iam e vinham do trabalho, comemoravam o 25 de Abril e o 1.º de Maio em criativas e muito vivas manifestações. Pelas ruas pulsava a revolução, ranchos de gente que se reuniam e se manifestavam, que reivindicavam e afrontavam com toda a tenacidade a reacção daqueles que, mais à direita (PSD e CDS) ou mais à «esquerda» (PS e outros), desde o primeiro dia boicotaram a Reforma Agrária, dando expressão à vontade dos agrários. Ela foi um marco na vida de muitos, jovens e menos jovens, que pela primeira vez tiveram contacto com várias expressões desportivas e culturais e um movimento associativo que lhes permitia dar forma livre ao sonho, à liberdade conquistada, à construção do devir colectivo. A Reforma Agrária forjou emprego e uma produção ligada às necessidades do País. Caminhou de mão dada com o Poder Local Democrático, seu irmão nessa aventura, reforçando-se mutuamente em realizações conjuntas, numa cooperação revolucionária. As crianças foram à escola, aprendiam numa escola nova que se iniciava, brincaram em pátios recém construídos, fintaram a fome e marcaram, pela primeira vez, golos em balizas reais.

Sonho e necessidade

As forças da contra-revolução venceram (momentaneamente). A adesão de Portugal à CEE/UE e a política dos sucessivos governos acelerou um processo reaccionário que visava a sua destruição. Vieram as «entregas» das terras, a destruição do progresso alcançado, a repressão, o desemprego... Para quem viveu o durante e o depois da Reforma Agrária, visitar muitas das nossas aldeias é um acto de revolta. Passeia-se pelas ruas e quase não se encontram jovens, obrigados a sair à procura de emprego e de melhores condições de vida. Muitos dos equipamentos, estaleiros e outras obras foram sendo abandonados ou destruídos. Passando pelos campos que antes estavam cheios de hortaliças, pomares, cereais, gados, constatamos que isso é apenas memória... A produção agrícola nesses campos é pouca ou inexistente. Num país onde se acentuam os défices alimentares e a dependência externa, não é aceitável que os sucessivos governos e a UE apliquem políticas, favorecendo os agrários com muitos milhares de euros de subsídios para não produzir. Não é aceitável que se continue a insistir numa agricultura industrializada e monopolizada pelo grande capital e na importação de produtos vindos de milhares de quilómetros de distância, com consequências para a qualidade da alimentação e para a saúde de todos nós, quando eles poderiam perfeitamente ser produzidos aí, onde já o foram, contribuindo para a criação de emprego e para inverter o abandono das nossas aldeias e o sobrepovoamento das grandes cidades.
Por isso o caminho só pode ser o da ruptura com estas políticas e com os partidos que são os herdeiros, no conteúdo, de uma política de defesa dos interesses dos agrários e de colaboracionismo com as grandes potências da UE.
E por isso é também necessário defender a memória da Reforma Agrária. Não apenas para a sua valorização histórica mas porque ela apontou um caminho de grandes transformações que mantém toda a actualidade e necessidade para a soberania alimentar nacional e o futuro do país. A reacção arrancou das entranhas do povo o progresso e destruiu a Reforma Agrária, mas não destruiu o sonho nem a sua necessidade. A memória não cala; grita por uma nova Reforma Agrária.


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