Loja certificada com «responsabilidade social»
Uma história de resistência no <i>Jumbo</i> de Gaia (*)
Vivemos num País em que foi conquistada a liberdade de expressão e o direito ao trabalho digno e honesto. Com profunda consternação, vamos descrever situações desumanas e até, se assim se pode dizer, de tortura física e psicológica aos trabalhadores do hipermercado Jumbo, no centro comercial Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia.
Na rotina diária das operadoras de caixa, é exigido pelo director da loja, o Sr. Henrique Summavielle, que não reclamem, mas que sorriam para os clientes, cativando-os... Mas, como será isso possível, quando estas mesmas operadoras pedem para ir ao WC e têm que aguardar substituição por períodos que não são humanamente suportáveis? Há bem pouco tempo, estava uma adjunta de secção a desempenhar as funções de patinadora e responsável de zona quando lhe foi pedido por uma operadora para ir à casa-de-banho. Respondeu: «Aguarda-se». Passados trinta minutos, a operadora voltou a pedir, e novamente lhe diz que aguarde, visto a mesma não se conseguir desmultiplicar. Passados quarenta e cinco minutos, a operadora tremia e desesperava para ir à casa-de-banho, volta a ligar à adjunta dizendo que não se estava a sentir bem, mas esta repete: «Tens que aguardar». A operadora vê uma colega que ia entrar ao serviço e, desesperada, pede-lhe para ficar na sua caixa. Quando a operadora regressa, recebe um telefonema da adjunta aos berros: «Não me voltas a fazer isto!»
Para além desta comum e frequente situação, existem outras ocorrências graves. Funcionários que não são bem-vindos aos olhos da Direcção são acompanhados pelos vigilantes à rua e são mesmo convidados a se despedirem, pelo próprio director, recebendo ainda a ameaça de que, se não se despedirem a vida no Jumbo irá tornar-se um suplício...
Como é possível serem emitidas, por uma gerente de departamento, várias decisões disciplinares em que, no próprio dia, entrega um documento mencionando que «foi considerado provado» e terá uma sanção registada? Algumas semanas mais à frente, a mesma gerente revistou um funcionário e uma responsável de zona, em plena linha de caixas, porque, em horário normal de trabalho, a senhora foi fazer as suas compras e, na caixa, deu conta de que o seu cartão Jumbo tinha desaparecido. Depois da revista, o cartão reapareceu...
Os funcionários têm que fazer mais horas nas secções, principalmente ao sábado (10 horas), mas para a direcção nacional do Grupo Auchan, a loja de Gaia tem funcionários a mais. Somos obrigados a fazer horas a mais durante o ano inteiro, sem ser pago o trabalho suplementar nem dada a devida compensação.
A uma colega dos produtos frescos, que tem de puxar paletes de leite e não se sente com forças físicas ou psicológicas para trabalhar tantas horas, foi entregue um horário em que faz o fecho, a sair à meia-noite e meia, e no dia seguinte entra às seis da manhã, e só tem descanso após sete dias de trabalho. Se reclamar com a chefe, é-lhe dito que quem não está bem tem a porta aberta.
No embalamento da padaria, uma trabalhadora com fibriomialgia sentiu-se mal e saiu mais cedo 30 minutos. Por não ter trazido justificação, a gerente considerou falta injustificada e abandono do local de trabalho.
A comissão sindical do CESP decidiu fazer uma denúncia pública de todas estas situações, visto a direcção da loja não ter abertura para dialogar. Nesse dia, dirigiu-se às delegadas sindicais uma «matilha» de vigilantes e foi chamada a Polícia, para calar a voz de umas «arruaceiras» que estavam a denegrir a imagem imaculada desta empresa certificada. Como a Polícia não nos deteve, nem a chuva desse dia, veio o director, que se dirigiu à dirigente responsável, em tom de ameaça e provocação.
Continuámos a nossa luta e, no dia seguinte, no meeting da manhã, o director explanou a alegada injustiça que tinha sofrido, por parte da Comissão Sindical, dizendo que «isto está muito mau, a loja não vende, estamos num crise mundial, há dez por cento de desempregados no País, e o que a empresa pede é que trabalhemos um pouquinho mais, todos temos obrigação de colaborar», e terminou, dizendo que «os processos disciplinares são para continuar». E realmente continuam.
Noutro dia, horas antes de irmos distribuir um documento da Direcção Nacional do CESP denunciando aquelas situações deploráveis, o director decidiu anunciar isso no meeting e declarou que estava consternado e escandalizado com tamanha coragem por parte do sindicato. Mais uma vez, afirmou que os processos vão continuar e que não vai impedir a entrada do sindicato, devido ao facto de o Jumbo ser uma empresa certificada com responsabilidade social.
Se esta certificação «SA 8000» não existisse, o que não poderia acontecer a estes trabalhadores, na maioria jovens e mulheres?
À nossa chegada, o vigilante informa os Recursos Humanos, deixa-nos subir e a responsável fez questão de nos dizer que «venho-vos cumprimentar, mas acho que vocês desta vez pisaram o risco».
O seu próximo passo, para aniquilar ou exilar o sindicato e a comissão sindical, é uma «cruzada»: chama os funcionários, um a um, dá-lhes a ler o documento sindical e pergunta o que pensam sobre ele. Também pergunta «por que é sindicalizado», explana as demagogias do costume e diz mesmo que «o sindicato e quem está conivente com ele vai ser responsabilizado», por isso «há que se desvincular»... e oferece-se para enviar as desistências.
Há tempos, um cliente efectuou uma reclamação, por causa do tempo de espera no corte do bacalhau. A gerente mandou, de imediato, os vigilantes colocarem o cliente na rua.
Até é ridículo pensar que alguém de renome no Grupo considera esta gerente «a melhor chefe de departamento das 19 lojas da Auchan».
Responsabilidade social? Uma empresa que faz estes atropelos à lei e aos direitos dos trabalhadores não merece, de forma alguma, este tipo de certificação.
Lamentamos que toda esta situação tenha chegado a este limite.
Mas temos a certeza de que vamos conseguir repor a legalidade e trabalhar com dignidade - a dignidade que nos foi dada pelos nossos pais, no 25 de Abril de 1974, com direitos e deveres, e com trabalho digno, sem seremos vistos como máquinas ou alvos a abater.

(*) A partir de um depoimento da Comissão Sindical do CESP/CGTP-IN


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