• Hugo Janeiro

«Projectar hoje e para o futuro o exemplo de Álvaro Cunhal»
Entrevista a Francisco Lopes sobre o ciclo dedicado a Álvaro Cunhal
Contributo para o caminho da luta

Durante o mês de Junho o PCP vai realizar um ciclo sobre Álvaro Cunhal intitulado «Uma vida dedicada aos trabalhadores e ao povo, ao ideal e projecto comunistas». O ciclo começa com uma sessão sobre «O Partido com Paredes de Vidro», que se realiza no dia 14, na Casa do Alentejo. Em conversa com Francisco Lopes, do Secretariado e da Comissão Política do Partido, abordámos esta primeira iniciativa e os seus objectivos, e levantámos o véu à sessão que se segue – no dia 22, no Tribunal da Boa Hora, evocando os 60 anos do julgamento de Álvaro Cunhal.

Avante!: O conjunto de iniciativas, decorrendo quando se assinalam os 5 anos da morte de Álvaro Cunhal são, no entanto, mais que uma evocação do aniversário do seu desaparecimento, mas uma celebração da sua vida, obra e luta, verdade?

 

Francisco Lopes: Sem dúvida. São uma forma de projectar hoje e para o futuro o exemplo de Álvaro Cunhal e a sua contribuição teórica, de elevadíssima utilidade no tempo que vivemos. O ciclo insere-se numa linha mais ampla de valorização e estudo da obra de Álvaro Cunhal, tarefa permanente dos comunistas e dos trabalhadores.

Mesmo quando se assinalam cinco anos sobre o seu falecimento, lembramos sobretudo a homenagem que a classe operária, os trabalhadores e o povo português lhe prestaram, cuja força e dimensão, confirmou a ligação profunda entre o povo português e Álvaro Cunhal, o seu partido de sempre, a sua intervenção em torno do ideal comunista e da construção da sociedade nova.

Na abordagem que estamos a fazer colocam-se múltiplos aspectos, desde logo o exemplo de vida como testemunho prático, como apelo à intervenção de cada um e de todos, sejam quais forem as circunstâncias. Esse é um elemento inspirador para as gerações de comunistas que hoje integram o Partido Comunista Português, Partido ligado à vida, aos trabalhadores e ao povo.

Álvaro Cunhal deu uma grande contribuição prática, mas também teórica através da sua obra multifacetada, da qual, no imediato, destacamos «O Partido com Paredes de Vidro» e a iniciativa marcada para dia 14 de Junho.

 

Essa iniciativa de que falas ocorre quando se assinalam os 25 anos da primeira edição de «O Partido com Paredes de Vidro». Qual é o seu objectivo?

 

Tem essa carga simbólica de assinalar os 25 anos da primeira edição, mas realiza-se sobretudo por razões que se prendem com a actualidade. A nossa grande tarefa após o XVIII Congresso é o fortalecimento do Partido nos mais diversos planos, reforço que estamos a concretizar sob o lema «Avante! por um PCP mais Forte». Ora «O Partido com Paredes de Vidro» trata precisamente do Partido Comunista e apresenta-se, assim, como fundamental na análise da situação de hoje e na determinação das tarefas que temos pela frente.

Desde a responsabilização de quadros e a sua formação política e ideológica; o rejuvenescimento do núcleo de funcionários do Partido e do conjunto dos seus quadros; a importância da organização junto da classe operária e dos trabalhadores nas empresas e locais de trabalho; o fortalecimento das organizações de base e da sua dinamização; a intervenção junto de outras camadas sociais, designadamente da juventude; a política financeira e dos meios próprios do Partido, essenciais para a acção que desenvolvemos; e aspectos como a batalha ideológica, que envolve a propaganda e informação, a valorização, dinamização e divulgação da nossa imprensa, a começar pelo Avante!.

Tudo isto com o propósito de reforçar a acção e alargar a influência e ligação às massas afirmando o PCP, a sua natureza e identidade próprias, dotando-o dos meios ideológicos, políticos e organizativos que o preparem para cumprir o seu papel, sejam quais forem as condições.

É importante sublinhar junto dos trabalhadores e do povo que podem contar com o PCP seja qual for o contexto em que o Partido tenha que actuar. Podem contar que, agindo hoje, respondendo à situação actual com esse objectivo de ruptura com a política de direita e a sua substituição por uma política patriótica e de esquerda, pelo projecto de uma democracia avançada, o socialismo e a emancipação do ser humano que comporta, são as razões mais profundas da nossa luta.

 

Referiste o reforço do Partido e a sua ligação a «O Partido com Paredes de Vidro». Uma concepção aprofundada nessa obra é a direcção e trabalho colectivos. Levar isso à prática também é reforço do Partido?

 

Essa é um traço de identidade do PCP e um programa de acção permanente. A consideração da direcção e trabalho colectivos como elemento basilar do nosso estilo de trabalho teve o contributo de Álvaro Cunhal que, além do mais, a projectou numa outra dimensão – a do próprio Partido como um grande colectivo; a do colectivo como força que se revela fundamental na capacidade de intervenção que o Partido demonstra.

Podemos dizer que esta, entre muitas contribuições teóricas de Álvaro Cunhal, é uma das que mais sobressai evidenciando a sua capacidade de teorização a partir da análise concreta, neste caso, do PCP e da sua intervenção. A concepção do colectivo partidário mostra a aplicação do marxismo-leninismo, com vivacidade, à nossa realidade, não numa perspectiva estática, mas numa visão que valoriza os elementos que sempre nos caracterizaram e que foram adquiridos na nossa acção própria.

Olhando num horizonte largo, depois da contribuição de Lénine para a definição do Partido de Novo Tipo, é difícil encontrar uma prestação tão profunda sobre o Partido Comunista enquanto colectivo revolucionário para a transformação da sociedade e para a concretização do projecto comunista.

«O Partido com Paredes de Vidro» foi lançado em 1985 antes das derrotas do socialismo no Leste da Europa. Bastantes anos depois, aquando da 6.ª edição portuguesa, Álvaro Cunhal faz um prefácio que é em si uma nova contribuição para o Partido e o ideal comunistas.

Olhando para uma realidade que tinha mudado muito; verificando o que as derrotas do socialismo tinham significado de retrocesso não só para os povos daqueles países mas para os povos de todo o mundo, reflecte, nas novas condições concretas, as questões que tinha adiantado anos antes. Faz uma análise crítica no sentido da valorização do projecto e ideal comunista. A leitura do prefácio ligado ao conteúdo do livro mostra-nos também o seu método de análise na apreciação da realidade e determinação, em cada momento mas nunca ao sabor das circunstâncias, do rumo e das linhas de força necessárias para maximizar a eficácia da nossa luta.

O livro trata ainda um conjunto diverso de matérias de entre as quais se destaca o projecto dos comunistas, que Álvaro Cunhal sintetiza de forma notável contrapondo-o ao sistema baseado na exploração e no lucro e do qual decorre todo um sistema de valores.

Decorrente disto, desta contraposição entre comunismo e capitalismo com toda a sua base ideológica, surge a questão da ética e da moral dos comunistas. Esse é um elemento que emana dos valores que estão subjacentes ao nosso projecto. Uma concepção ética e uma moral que se baseia naquilo que são a defesa dos interesses de classe dos trabalhadores, nos valores do trabalho e da solidariedade contra os valores que radicam na exploração, no lucro, na depredação dos recursos, na consideração dos interesses do grande capital acima de tudo e razão para tudo.

A questão da corrupção, hoje tão presente no nosso País, não é uma questão lateral ao sistema capitalista, mas um elemento intrínseco à lógica da exploração e do lucro. Este é um aspecto do livro que conserva extraordinária actualidade.

A obra de Álvaro Cunhal trata, ainda, da ligação do Partido às massas. É uma questão central, pois refere-se ao papel do Partido como vanguarda, ao Partido que tem este objectivo mais imediato de ruptura com a política de direita, mas que associa à acção de todos os dias, ao esclarecimento, à promoção da unidade, organização e luta dos trabalhadores e das populações, à força das massas em movimento - essa força decisiva e a única capaz de derrotar a ofensiva e assegurar a concretização de uma política que responda aos anseios dos trabalhadores e do povo -, o projecto próprio do PCP.

 

No âmbito deste ciclo vão ainda ser assinalados os 60 anos do julgamento de Álvaro Cunhal, que o dirigente comunista transformou num libelo acusatório do regime e num significativo acto de resistência ao fascismo. O que é que nos podes adiantar sobre esta iniciativa?

 

Decorre no dia 22 de Junho nas instalações do Tribunal da Boa Hora e contém dois aspectos. Primeiro, lembra o que foi o regime fascista sublinhando o seu carácter repressivo e a sua natureza de ditadura terrorista. Ao mesmo tempo, procura salientar que, mesmo nas condições mais difíceis, é possível resistir, lutar e vencer.

Esse julgamento fantoche a que foi sujeito Álvaro Cunhal e a forma como o transformou em resistência ao regime fascista, mostra que a confiança na luta e no povo, no PCP e no ideal comunista, é determinante para triunfar. Quem olha para o País e para o mundo, para todo o cerco político e ideológico cujo fim é amarfanhar a intervenção dos que se opõe aos objectivos da classe dominante, tem nesse acontecimento um enorme estímulo para se juntar hoje à luta, para a promover e intensificar.



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