• Anselmo Dias

A população activa diminuiu cerca de 123 600 cidadãos
O País caminha para o abismo
A destruição de emprego<br>da construção civil<br>às forças armadas

A campanha em torno do aumento conjuntural de 1,1% da economia no decurso do 2.º trimestre de 2013, comparativamente ao trimestre anterior, serviu de biombo para esconder a tragédia social do último ano, designadamente quanto à questão da destruição de emprego e às suas gravosas consequências.

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O País caminha para o abismo e não são os efeitos conjunturais, devido à sazonalidade e a circunstâncias pontuais, que minimizam o efeito devastador da destruição do emprego, quer para o País, quer para todos aqueles que, perdendo o seu posto de trabalho, são, à revelia da evolução histórica, obrigados a regredir no seu nível de vida.
Os dados do INE reportados ao espaço temporal entre o 2.º trimestre de 2012 e o 2.º trimestre de 2013, embora, na sua essência, não tragam nada de novo têm, contudo, o mérito de quantificar a dimensão da tragédia e evidenciar que os indicadores vigentes vão no sentido do agravamento e do prolongamento da crise.

População residente
no país diminuiu

A população residente em Portugal – que havia ultrapassado os 10 600 000 residentes –, regrediu para 10 505 100 no 2.º trimestre de 2013, valor que continua em queda.
Esta regressão foi mais acentuada na estrutura etária dos 25 aos 34 anos, certamente explicada pela emigração.
Nas faixas etárias mais baixas houve também uma diminuição.
Como era de esperar, nos extractos da população mais idosa houve um aumento, quer no escalão dos 65 e mais anos, quer no escalão dos 45 aos 64 anos.
O País está, pois, a envelhecer não só devido à baixa natalidade como à emigração, a fazer lembrar os efeitos demográficos nas décadas de 60 e 70 do século passado decorrentes da guerra colonial e da emigração.
Mercê do atrás referido a população activa, aquela que, pela idade, está em condições de exercer uma actividade laboral, diminuiu em cerca de 123 600 cidadãos. Tal diminuição teve, em termos percentuais – na ordem dos 10% –, a sua expressão mais preocupante no grupo dos 15 aos 24 anos.

Diminuição da população
empregada

A população empregada, ou seja, todos aqueles que exercem uma actividade laboral, também diminuiu.
Tal diminuição, no decurso do ano que terminou no 2.º trimestre de 2013, correspondeu a 182 600 empregados, o que significa que:

  • a destruição de emprego superou a perda de população;

  • a destruição de emprego superou a diminuição da população activa;

  • a destruição de emprego superou, em muito, a evolução oficial do número de desempregados.

O emprego diminuiu em todos os extractos etários, com especial relevância para os escalões mais jovens, designadamente dos 15 aos 24 anos, o mais atingido.
Surpreendentemente, no escalão relativo aos 65 e mais anos também houve uma diminuição de pessoas empregadas, o que comprova a transversalidade do problema.O que não surpreende é o facto de, na diminuição do emprego, as percentagens mais elevadas abrangerem os empregados com habilitações até ao 9.º ano, embora os homens com cursos superiores tenham passado de 400 800 em 2012, para 371 500 em 2013, facto que explica que a transversalidade atrás referida também abrange os graus académicos mais elevados, ou seja, ninguém escapa ao projecto de sociedade que a direita quer aplicar a Portugal.
Analfabetos e doutores, todos estão metidos no mesmo barco.

Por grandes ramos de actividade as maiores destruições de emprego em termos absolutos foram as seguintes:

  • construção civil: menos 72 600 empregos;

  • indústria transformadora: menos 40 100 empregos;

  • comércio: menos 38 100 empregos;

  • educação: menos 18 900 empregos;

  • agricultura e pescas: menos 18 500 empregos;

  • saúde e apoio social: menos 18 000 empregos. 

Em termos percentuais, no âmbito da actividade económica – não confundir com profissões –, as maiores quebras foram as seguintes:

  • construção civil: 19,4%;

  • actividades financeiras: 9,2%

  • actividades de informação e comunicação: 6,4%;

  • actividades artísticas, de espectáculos, desportivas e recreativas: 6,0%;

  • comércio: 5,5%;

  • indústrias transformadoras: 5,2%.

Curiosamente não aparece nesta listagem a quebra que o patronato ligado aos restaurantes previa para o sector em função do aumento do IVA.

 

Com efeito, o INE estimou para o sector do alojamento e restauração a existência de 282 200 empregados no 2.º trimestre de 2012 e 280 600 no 2.º trimestre de 2013, o que significa uma quebra na ordem dos 0,57%, valor que fica muito aquém da destruição de emprego, comparativamente à média nacional.
Há, pois, uma grande discrepância entre os dados do INE e os dados daquela organização patronal, cuja demagogia é, desde há muito tempo, bem conhecida.
Tal discrepância poderá, eventualmente, ser explicada pela economia paralela que grassa no sector, realidade bem amarga para os trabalhadores, vítimas não só de baixos salários e da exclusão, em muitos casos, no acesso à Segurança Social mercê da ausência de descontos por parte de muitos patrões.
Esperemos pelos próximos resultados para uma melhor apreciação e sugere-se, na área da restauração, um adequado cuidado na análise dos números divulgados pela respectiva organização patronal por forma a que não se mastigue a comida mastigada por outros.

Se, em termos gerais, a análise à perda de emprego for feita na base das profissões em vez da análise aos ramos de actividade os resultados não deixam de surpreender. E de surpreender bastante.
Com efeito, contra tudo o que tem sido dito, a maior quebra percentual de emprego no plano meramente profissional diz respeito às Forças Armadas, cujos efectivos, no período em apreço, diminuíram 20,5%!
Trata-se da maior quebra profissional em Portugal no decurso de um ano.

Às Forças Armadas seguem-se:

  • trabalhadores qualificados da indústria, da construção e artífices: menos 16,1%;

  • pessoal administrativo: menos 12,8%;

  • trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta: menos 5,0%;

  • especialistas das actividades intelectuais e científicas: menos 4,6%;

  • operadores de instalações e máquinas: menos 2,2%;

  • técnicos e profissionais de nível intermédio: menos 0,8%.

Houve, porém, no decurso deste período um aumento de emprego em certas profissões, designadamente na área das actividades ligadas à prestação de serviços pessoais – limpeza, vigilância e outros –, a trabalho não qualificado e a funções de direcção e gestão.
Nestas perdas e ganhos é de sublinhar um outro aspecto negativo, ou seja, a redução na ordem de cerca de 145 000 trabalhadores a tempo completo e a contrato sem termo.

Conjugando tudo isto é possível concluir que o retrocesso civilizacional em curso tem, entre muitas outras vertentes, por objectivo:
- substituir o trabalho qualificado por trabalho com pouca qualificação;
- substituir o trabalho a tempo completo por trabalho a tempo parcial;
- substituir o trabalho sem termo por trabalho a termo,
- substituir os salários estabelecidos contratualmente por baixos salários negociados individualmente.

Tudo isto inserido no processo de fascização social em curso.

 

Fonte:
INE, Estatísticas do Emprego, 2013 – 2.º trimestre.

 



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