Os correios norte-americanos (também) não estão à venda

Milhares de trabalhadores dos serviços postais estado-unidenses assinalaram na passada quarta-feira o Dia Nacional de Acção em defesa dos correios públicos. As mais de 56 manifestações realizadas em todos os estados vieram denunciar o plano anunciado por Patrick Donahoe, o chefe dos correios públicos dos EUA, para eliminar 100 000 postos de trabalho, reduzir os horários de 13 000 estações e eliminar vários centros de triagem e distribuição.

Os Correios dos EUA (USPS) são uma das maiores empresas públicas do país norte-americano, com quase 750 000 trabalhadores e um dos contratos de trabalho colectivo mais avançados de toda a América do Norte. No entanto, e mesmo com direitos raros nos EUA como o direito a férias pagas, subsídio de maternidade e salários dignos, a USPS fechou o último ano fiscal apresentando lucros na ordem dos 660 milhões de dólares.

Há muitas décadas que o grande capital estado-unidense sonha com apoderar-se deste lucro. Porém, como a privatização de uma empresa pública tão lucrativa dá nas vistas, foi criada uma lei que, desde 2006, obriga os USPS a pagar dez anos antecipadamente a cobertura dos seguros de saúde dos futuros reformados, calculados em função da especulação financeira. Este artifício permite diagnósticos trágicos sobre a sustentabilidade dos correios públicos e serve de argumento aos defensores da sua privatização.

O cartão-postal da luta que chega a 1 de Maio

A privatização dos correios começara já com a abertura de 83 balcões dos USPS dentro das lojas da Stapples, um projecto piloto que se traduziu na degradação da qualidade do serviço, bem como na contratação de trabalhadores não qualificados, remunerados com o salário mínimo e proibidos de se organizarem em sindicatos. Os trabalhadores acusam a proposta orçamental de Obama, alinhavada com o plano de Donahoe, de pretender oferecer os correios à Stapples por uma insignificância arrasando primeiro com o serviço. A proposta de Obama e Donahoe consiste em eliminar por completo o serviço porta-a-porta e o funcionamento dos correios aos sábados, levando a que cada vez mais utentes recorram a empresas de serviço postal privadas como a FEDEX ou a UPS. Um estudo recente calculou que estas medidas trariam uma quebra no volume de negócios superior a 5,3 mil milhões de dólares.

A própria capacidade de luta e resistência dos trabalhadores dos correios explica a sanha que o grande capital lhes guarda. Num momento em que vários estados avançam no sentido da destruição e criminalização dos sindicatos através de leis como a «Right to work», os trabalhadores dos correios podem-se orgulhar do APWU, um sindicato de expressão significativa a nível nacional que, apesar de importantes contradições políticas, alcançou ano após ano conquistas importantíssimas que o Estado Federal não assegura, como o direito a uma reforma digna.

Agora, os trabalhadores têm em marcha um calendário de lutas pela defesa dos serviços públicos e contra a entrega dos correios a privados. Entre as várias vigílias e manifestações, destaca-se a participação de várias associações de trabalhadores dos correios nas comemorações do Dia Internacional do Trabalhador, efeméride que apesar de ter origem neste país esteve praticamente proscrita até aos nossos dias.




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