O presidente dos EUA evitou transmitir arrependimento
Presidente dos EUA na Ásia com a China na mira
Obama sem perdão

Barack Obama concluiu no Japão um périplo pela Ásia. Em Hiroxima escusou-se a pedir desculpa pelos bombardeamentos nucleares sobre aquela cidade e a de Nagasaki.

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O presidente dos EUA viajou até terras nipónicas para participar na cimeira do G7, reunião que até recentemente era designada como a dos países mais industrializados do mundo. A ascensão técnico-científica e económica da República Popular da China tornou desajustado aquele termo.

Na bagagem, Barack Obama levou a doutrina do imperialismo norte-americano para a região, mas no périplo sobressai a visita a Hiroxima. Confirmou-se a recusa do chefe de Estado em pedir perdão pelos ataques norte-americanos às cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, a 6 e 9 de Agosto de 1945, respectivamente, os quais figuram na história como os únicos realizados contra civis com armas nucleares.

A presença de Obama no memorial às vítimas foi histórica pelo seu carácter inédito. Nunca um presidente dos EUA em exercício ali tinha estado. Richard Nixon foi a Hiroxima antes de ser eleito, e Jimmy Carter depois de cumprir mandato na Casa Branca. Obama não fica porém para a posteridade pelo que de substantivo ali disse.

No memorial, sexta-feira, 27, Obama lembrou que «há [quase] 71 anos, a morte caiu do céu» e que o mundo mudou para sempre com a demonstração de que «a humanidade tem meios para se destruir». Apelou à reflexão sobre essa «força terrível libertada num passado não tão longínquo» e a uma «revolução moral». O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, considerou, posteriormente, que a visita e as declarações abrem um novo capítulo nas relações nipo-norte-americanas.

Dois dias antes, após um encontro entre ambos à margem da cimeira do G7, Barack Obama reiterou o que já havia dito em entrevista a um canal televisivo antes do périplo asiático: «A nossa visita a Hiroshima vai servir para honrar todos aqueles que perderam a vida na Segunda Guerra Mundial e para reafirmar a nossa visão comum sobre um mundo livre de armas nucleares». Ou seja, confirmou que os EUA não iriam rogar perdão pelos bombardeamentos.

Nem arrependimento

Para além de contornar o pedido de desculpas formal, o presidente, agraciado como o Nobel da Paz em 2009, evitou transmitir arrependimento. Pelo contrário, referiu que sendo «presidente de uma nação que por vezes é ameaçada por riscos reais», compreende que «é importante actuar em conformidade para garantir a protecção dos norte-americanos».

Muitos japoneses não hesitam em manifestar dor pelas consequências do imperialismo nipónico, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, se bem que essa não seja a posição de Estado. A propósito da visita de Obama, o ministro dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China chamou a atenção para a necessidade de o Japão reconhecer os crimes durante a ocupação do território. A associação de vítimas coreanas da bomba atómica, por seu lado, acusou Barack Obama de negligenciar o sofrimento provocado pelo holocausto em Hiroxima e Nagasaki, e reiterou a exigência de um pedido de desculpas quer dos EUA quer do Japão.

No Japão, as sucessivas recusas oficiais de apresentação de desculpas pelos horrores do colonialismo consolidou o branqueamento da história e criou sedimento para a exaltação de falsos valores de superioridade. É um reflexo da realidade nipónica o facto de, por estes dias, um deputado de centro-esquerda ter apresentado no parlamento de Tóquio um projecto legislativo de condenação da xenofobia, particularmente evidente e crescente no país face aos coreanos.

A maioria dos japoneses pretendia de Barack Obama um pedido de desculpas que traduzisse arrependimento. Não só não o obtiveram, como foram ainda confrontados com a teoria dos «danos colaterais» como um «preço a pagar».

Muitos dos sobreviventes de Hiroxima e Nagasaki voltaram, nesta ocasião, a relatar os efeitos brutais das bombas atómicas lançadas por ordem do então presidente dos EUA, Harry Truman: seres humanos e edifícios carbonizados por igual; um «exército de fantasmas» com a pele a desprender-se da carne aos pedaços e os olhos esbugalhados a saltarem das órbitas; a chuva negra e ácida corroendo os corpos de vivos, moribundos e mortos; as marcas psicológicas inapagáveis, como aquelas que fazem do quotidiano crepúsculo um rememorar da luz assassina que se expandiu após as explosões.


Não esquecer

Estima-se que em Hiroxima e Nagasaki tenham morrido mais de 250 mil pessoas só nos bombardeamentos nucleares. Pelo menos outras tantas morreram nos meses imediatamente a seguir. Dezenas de milhares foram depois perecendo devido a enfermidades associadas à exposição à radiação, como o cancro. Muitas sobrevivem suportando maleitas crónicas, ferimentos ou mutilações.

Os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasaki são apresentados pela historiografia imperialista como necessários para a rendição do Japão. Essa é uma versão que para além de contribuir para salvaguardar acusações e condenações de crime de guerra, oculta que a força militar e de resistência japonesa se encontrava derrotada (a superioridade naval e aérea eram passado), subsistindo pouco mais do que o mito de um império inexpugnável e determinado a não capitular.

O facto de as duas cidades serem importantes centros industriais do Japão não pode igualmente servir de justificação, tanto mais que é consensual que o país estava esgotado de meios e recursos, tendo a sua capacidade produtiva já sido desmantelada.

Na Europa, a força aérea norte-americana, conjuntamente com a congénere da Grã-Bretanha, bombardeou as cidades alemãs de Hamburgo e Dresden. Ambos os ataques são apreciados como operações sem qualquer justificação militar, constituindo-se como iniciativas de inaceitável sacrifício de civis que, além do mais, eram mão-de-obra forçada das hordas hitlerianas.

No primeiro caso, ocorrido em 1943, foram vitimadas cerca de 50 mil pessoas. No segundo, em 1945, morreram cerca de 25 mil. Inúmeras infra-estruturas estratégicas como pontes ou estradas, e, sobretudo, boa parte dos complexos industriais que podiam ainda ser usados pela máquina belicista nazi, situados fora do centro de ambas, permaneceram intactos.


Coreia e nuclear

Na sua deslocação ao Japão, Barack Obama falou num esforço mundial de desnuclearização, pese embora as armas nucleares «já não ocupem o primeiro plano nos nossos espíritos como acontecia durante a Guerra Fria», afirmou.

O presidente dos EUA não adiantou, no entanto, quais os passos concretos que o seu país estaria disposto a dar, designadamente na redução do seu próprio arsenal (de longe o maior e mais sofisticado) e daquele mantido pelos seus mais estreitos aliados, caso de Israel, potência nuclear não declarada e não supervisionada.

Barack Obama apontou, ao invés, baterias à Coreia do Norte, apesar de admitir que «não é necessariamente o [país] que oferece maior risco imediato». Em Ise-Shima, os representantes das nações G7 mais a UE, fizeram eco da Casa Branca e exortaram Pyongyang a não proceder a mais provocações.

Nas últimas semanas, a República Popular Democrática da Coreia propôs conversações tendo por objectivo aliviar a tensão militar na península. Num gesto significativo, as autoridades norte-coreanas nomearam como ministro dos Negócios Estrangeiros o diplomata de carreira responsável pelo diálogo com os EUA e a Coreia do Sul durante mais de duas décadas.

O governo sul-coreano, por seu lado, recusou o diálogo argumentando que este terá de conter como pré-condição a desnuclearização do vizinho do Norte. A RPDC concorda abordar a desnuclearização da península desde que do território sul-coreano saiam as tropas norte-americanas que ali permanecem desde 1953, e sejam consideravelmente reduzidos os exercícios militares conjuntos nas proximidades das suas fronteiras. Manobras de guerra como aquelas que se realizam neste mês, envolvendo meios navais e anti-míssil dos EUA, Coreia do Sul, Japão e Índia.


China na mira

Questão central no périplo asiático de Barack Obama foram os esforços para contestar a prevalência chinesa na região. Por exemplo, imiscuindo-se na disputa em torno do Mar do Sul da China, que envolve esta última e o Japão, Malásia, Filipinas, Brunei, Taiwan e Vietname.

Os líderes do G7 pronunciaram-se pela resolução do diferendo de forma pacífica e com base na legislação internacional, sugerindo, assim, que tal não tem acontecido. Antes, em visita oficial ao Vietname, o presidente dos EUA anunciou o levantamento do embargo de armas ao país, medida simbólica indissociável da exploração dos sentimentos de soberania vietnamita relativamente a uma fracção do Mar do Sul da China. Obama realçou, ainda, que «os grandes países não devem intimidar os mais pequenos».

A 10 de Maio, um vaso de guerra norte-americano navegou a escassos quilómetros de ilhas chinesas situadas no Mar do Sul. A 17, aviões chineses interceptaram uma aeronave de patrulha e reconhecimento dos EUA na mesma zona.

Entre um e outro incidentes, Pequim acusou os EUA de distorcerem deliberadamente a sua política de defesa e avisou para o prejuízo grave que tal implica na relação de confiança entre os dois países. A China reagiu, dessa forma, a um relatório do Pentágono que atribui às autoridades chinesas «tácticas coercivas» no Mar do Sul. «São os Estados Unidos que têm mostrado poderio militar ao frequentemente enviarem aviação e navios de guerra para a região», respondeu Pequim.

Por outro lado, também no Vietname, Barack Obama defendeu o Acordo Transpacífico como «a coisa certa a fazer». O Tratado inclui 12 países (Austrália, Bornéu, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietname) e é encarado pela China como uma resposta ao seu poderia económico.

 



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