• José Carlos Faria

40 anos de Festa do Avante!<br>30 anos de Avanteatro

O Teatro foi um dos alvos preferenciais da censura, reprimido o acto criador quer na escrita quer na representação do gesto e da palavra desobstruída propiciadora da consciência de si e dos outros, do mundo e das coisas. Com «as portas que Abril abriu», o Teatro, ferramenta do Real em movimento, foi onde nunca tinha podido ir, a dar conta do que fôramos, do que estava a ser e também do por vir.

Rompido o isolamento e derrubado o obscurantismo da anacrónica ditadura fascista, podia ser satisfeito plenamente, para quem via e para quem fazia, o contacto emancipador com um Teatro tomado como arma, em simultâneo sofisticado e popular, frontal e subtil, sintonizado com o seu tempo, cujos exemplos mais relevantes, até aí sonegados e abafados, em muitos casos chegavam de experiências realizadas, por diferentes vias e propósitos, em países socialistas: desde o método de formação de actores e a abordagem dramatúrgica em vigor no Teatro de Arte de Moscovo, até à concepção vanguardista do Teatro Laboratório de Jerzy Grotowsky na Polónia, passando pela prática teatral dialéctica e materialista de Bertolt Brecht no Berliner Ensemble, na qual se perspectivava a desmontagem crítica do Grande Mecanismo da dominação política, social e económica.

Nessa grande e ímpar manifestação cultural que é a Festa do Avante!, nada mais natural pois, desde a sua primeira edição em 1976, do que a presença regular do Teatro, como mais um sinal de Liberdade, demonstração de que «a cultura é um acto político, e a política uma expressão de cultura». Em 1986, a Festa ganhava um novo espaço, o Avanteatro, que arrancava assim com sete salas cheias para sete espectáculos de sete companhias. Aliás, a forte presença de um público, entusiasmado e participativo, foi sempre uma constante. O Avanteatro, nos antípodas da alienação, para além dos espectáculos ligados às Artes Cénicas visando divertir e ensinar (Teatro e teatro de rua, Dança, Ópera, Marionetas e actividades de Café-Concerto) tem suscitado debates temáticos, organizado ateliers para a infância, apresentado exposições, cinema documental, concertos de música e recitais de poesia, onde se tem destacado a qualidade do reportório proposto e a actuação de algumas das principais companhias teatrais nacionais (Bando, Barraca, Cendrev – Centro Dramático de Évora, Companhia de Teatro de Almada, etc.). De igual modo, nomes essenciais do Teatro Português, comunistas cuja memória perdura entre nós (Artur Ramos, Canto e Castro, Joaquim Benite, Mário Barradas, Morais e Castro) cruzaram os seus trabalhos com o Avanteatro.

Mais do que um somatório desgarrado de representações, o Avanteatro tem procurado enquadrar a sua programação com algumas efemérides importantes: em 1998 os centenários do nascimento de Bertolt Brecht e Federico Garcia Lorca, em 2002 os 500 anos da primeira representação Vicentina, sendo Gil Vicente uma presença regular ao longo das várias edições, no centenário de Álvaro Cunhal a leitura encenada de excertos da sua tradução de «Rei Lear» de Shakespeare, por actores do Teatro Nacional Dona Maria II, e nos 40 anos da Reforma Agrária, Três Vozes de Teatro, uma montagem de teatro-documento, testemunho vivo de uma das mais belas páginas da Revolução de Abril e dos negros ataques a que foi sujeita.

A História esteve em cena, contada por diversas maneiras: «Afonso Henriques», «Fernão Mentes», «Felizmente Há Luar», «Autos da Revolução» (de António Lobo Antunes, encenado por Pierre-Etienne Heymann, encenador e pedagogo de grande prestígio no contexto do teatro europeu).

O Avanteatro tem procurado introduzir melhorias significativas nas condições infra-estruturais de acolhimento, seja no que diz respeito à comodidade do público, seja no que se refere à potenciação técnica da área de palco e insonorização, através da mudança de local em 1996, de um maior isolamento e alargamento da zona de bastidores em 2012 e agora em 2016 com um espaço nobre renovado.

Face ao indisfarçável desejo de mercantilização crescente da Cultura e extinção da maioria dos criadores e agentes culturais, o Avanteatro perfila-se como um bastião de resistência, tal como se podia ler numa imagem de uma das exposições exibidas: «A vida não pode restringir-se à economia do quotidiano. A Arte – sonho do Homem – é o destino final do Homem».

 



 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: