• Anabela Fino

Não te rendas

No fecho desta edição desconhecia-se ainda o resultado da votação no Senado brasileiro que ditará, mais do que o futuro da presidente Dilma Rousseff, o futuro do Brasil.

O processo que há nove meses se desenrola para afastar uma presidente reconhecida como honesta até pelos seus mais ferozes detractores, mostrou já no entanto que o que está em causa desde o início é o julgamento político de uma chefe de Estado e de governo que independentemente das críticas legítimas que possam ser feitas ao seu mandato tinha como programa a prossecução de uma política com preocupações sociais. Uma chefe de Estado e de governo mais apostada na cooperação e integração latino-americana do que na subserviência a Washington. Uma chefe de Estado e de governo capaz de olhar o mundo e de fazer alianças sem se curvar aos ditames dos EUA. Coisas imperdoáveis, está bom de ver, a exigir medidas drásticas, mesmo que para tal seja necessário sacrificar a democracia burguesa e transformar um país que se afirma democrático numa república das bananas. Como por estes dias disse o senador brasileiro Roberto Requião (curiosamente do PMDB, o partido do golpista Michel Temer), dirigindo-se aos seus pares, «se as senhoras e os senhores concordam com a redução do Brasil a um medíocre estado associado, outro Porto Rico, que se sintam servidos. Não será a primeira vez que os abutres e os corvos caem sobre o nosso país, retalhando-o, estraçalhando-o, sugando-o».

O que está a suceder no Brasil, em que deputados e senadores corruptos a contas com a Justiça julgam uma presidente que nenhuma manobra, por mais espúria, conseguiu envolver em qualquer escândalo ou corrupção, é um golpe palaciano orquestrado pelo grande capital saudosista dos tempos do chicote e da senzala, do passado recente em que 15 milhões de brasileiros viviam na escuridão por não terem acesso à luz eléctrica, em que milhões de famílias não tinham casa para morar, em que milhões de homens, mulheres e crianças nunca tinham visto um médico, em que os filhos dos operários nunca podiam sonhar ser doutores.

O que está em causa nesta farsa burguesa que abre portas à tragédia do povo brasileiro não são «pedaladas fiscais» nem «crimes de responsabilidade» da presidente Dilma.

O que está em causa é a possibilidade de 54 senadores disponíveis para vender o seu voto pelo melhor preço poderem destituir uma presidente eleita por 54 milhões de brasileiros.

O que está em causa é o confronto entre os que para combater a miséria pugnam pela bolsa família e os que apenas se preocupam com a bolsa de valores.

Na sessão do Senado que quando este jornal for para as bancas já terá decidido o desfecho do golpe de que são autores e protagonistas, houve quem citasse o poema de Mário Benedetti «Não te rendas». Cabe ao povo brasileiro tomá-lo como seu: «...Não te rendas, por favor, não cedas: mesmo que o frio queime, mesmo que o medo morda, mesmo que o sol se ponha e se cale o vento, ainda há fogo na tua alma, ainda existe vida nos teus sonhos».




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