• Manuel Pires da Rocha

O protagonista da música de Bernstein é o povo norte-americano
Bernstein na Atalaia

E se Leonard Bernstein pudesse subir ao Palco 25 de Abril da Festa do Avante! para dirigir o Concerto em Louvor do Homem? Estivesse ainda entre nós e a Atalaia seria o seu palco natural, um dos muitos situados em lugares considerados inabituais. Talvez por ter sido, ele próprio, tocado um dia pelo acaso de um piano em derramamento sonoro, numa descoberta inesperada que viria a ser ofício de uma vida inteira.

Até a própria associação do Concerto ao Bicentenário de Marx lhe seria saborosa, tanto se procura esconder o seu (essencial) lado político. É que as «notas de programa» das salas de bilhete caro não costumam referir a inquietação que Bernstein provocou nas fileiras do FBI e demais instituições repressivas dos EUA. Mas é pena, porque a obra de um homem de Cultura tem sempre mais encanto quando se nota a tinta que lhe deu cor – vermelha, na opinião da administração Truman, que decidiu encomendar ao Bureau, em 1949, uma investigação ao passado de Bernstein.

A investigação terá sido tão bem-sucedida que, em 1951, o nome de Leonard Bernstein surge pela primeira vez no Security Index, a listagem de americanos suspeitos de simpatizar com o comunismo, levando mesmo à recusa da renovação, em 1953, do passaporte do músico.

Alma porventura desviada das virtudes do American Way of Life, Bernstein foi, assim, vítima do terror da Caça às Bruxas, de que o senador MacCathy foi mandante, jurando pela sua honra nunca ter integrado qualquer organização comunista. A História o viria a absolver, já que da jura não fez Bernstein linha de rumo: o tema do macarthismo viria a ser abordado na sua opereta Candida (1956), na qual zurze a golpes de humor a política anticomunista dos EUA.

Comunicar o inexplicável

A década seguinte encontra Bernstein entre os opositores da guerra do Vietname. Mais tarde, ao revelar simpatia pública pelos Panteras Negras (de que ficou para o futuro a imagem de Tommie Smith e John Carlos de punho levantado nas Olimpíadas de 1968), Bernstein capta definitivamente a atenção de John Edgar Hoover, o sinistro diretor do FBI. E em 1971, com Mass – a obra composta para a inauguração do Kennedy Center of Performing Arts – Bernstein provoca a recusa política de Nixon em comparecer no acto e justifica a censura de opinião nas páginas do New York Times. Diga-se, porém, que houve ali merecimento: afinal, a obra refletia sobre as injustiças do nosso mundo…

Não se pense, porém, que Leonard Bernstein tenha sido, em Mass, mais humanista (subversivo, portanto) do que em qualquer das suas obras. O protagonista da sua música é o povo norte-americano, isto é, a teia humana de descendentes de todos os povos do mundo, depositados uns num cais à beira dos oceanos – escravos e imigrantes, como os pais do próprio compositor – outros ainda cruzadores de fronteiras usurpadas, em que desde há décadas se levantam muros.

Há 100 anos nascia o maestro, pianista, compositor, pedagogo (e tudo o mais que soube ser) que disse que «a Música dá nome ao inominável e comunica o inexplicável». As suas Danças Sinfónicas de West Side Story subirão ao palco da Atalaia para ilustrar outras palavras, igualmente acertadas segundo as quais «mais do que explicar o Mundo, o que importa é transformá-lo». Se o Céu existir, na sexta-feira olhemos para cima: Bernstein e Marx hão de estar à varanda debruçados sobre a Festa!

 



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