• Henrique Custódio

A memória

«Não soubemos passar a mensagem» é um bordão dos partidos de direita – PSD e CDS – para iludir a erosão que esboroa as suas fileiras. Desorientados, até já apoiaram com a esquerda, por umas horas, a contagem de tempo de serviço dos professores, recuando por chantagem do PS e ficando ainda mais fragilizados perante a opinião pública. Isto apenas como exemplo recente.

A conversa do «não soubemos passar a mensagem» é velha e relha, mas continua a servir de escapatória aos partidos que vêem na «mensagem» o meio expedito de ludibriar o próximo.

Afinal, o que é «a mensagem» neste contexto?

A mensagem, num raciocínio de direita, é algo que convence as massas, independentemente de ser verdade ou mentira. Aliás, a verdade é algo muito esquivo, no raciocínio praticado pela direita e é aí que bate o ponto.

A maioria absoluta conseguida por Passos com o penduricalho CDS/Portas jogou a fundo na destruição dos fundamentos da Revolução de Abril, pelo que avançou em duas direcções.

Uma, procurando desmantelar as protecções sociais na Saúde, no Ensino, na Justiça, nos transportes, nas liberdades e garantias. Foi o ataque a fundo contra os sindicatos e o sindicalismo, contra o Código de Trabalho, contra o emprego, os salários, os subsídios e as subvenções do Estado, os direitos adquiridos ou conquistados. Foram quatro anos de chacina social.

A outra direcção foi pretensamente cultural e, antes das fake news de Trump, procuraram impor no País algo de semelhante, como imbecilidades reaccionárias tomadas por «verdades» indiscutíveis. Foi o tempo do «não há alternativa» (como se a História da Humanidade e o materialismo dialéctico não fossem a prova viva de que há sempre alternativa), do «não podemos viver acima das nossas possibilidades» (como se a esmagadora maioria dos portugueses não sobrevivesse, há longas décadas, abaixo das suas possibilidades). Isto misturado com asserções de imbecilidade avulsa, como «temos de sair da nossa zona de conforto» ou «há muito emprego na emigração».

Quem governou nestes termos tem, obviamente, «desconforto» a «passar a mensagem» em tempos democráticos no Executivo e nas instituições, que é o problema que os partidos de direita enfrentam neste tempo eleitoral.

«Passar a mensagem»? Mas que mensagem? Uma, a dizer que os partidos de direita querem, agora, reconstruir o que destruíram no Governo Passos/Portas? Ou outra, a garantir o regresso aos tempos da mentira com consequências – e bem gravosas – para o povo português?

Nenhuma delas é passível de atrair as massas que – ao contrário do que esta gente do «passa mensagens» pensa – têm não apenas memória, como memória histórica.

O que a direita não tem é mensagem – pois a que tem é repudiada, como a direita bem sabe.




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