• António Gavela

Avanteatro
Lugar de encontro de memórias onde a verdade liberta

O Avanteatro voltou a apresentar uma diversidade de espectáculos de qualidade por grupos de todo o País. As manhãs de sábado e domingo foram dedicadas aos mais novos, houve espectáculos no exterior, música, cinema, debateu-se a criação e a fruição culturais e um espectáculo surpreendente de danças e canções chinesas.

A programação, como nos referiu Manuel Mendonça, da organização do Avanteatro, «tem como fio condutor a “Memória reprimida”, trazendo ao público espectáculos que tratam acontecimentos nacionais como a catástrofe que foram as cheias do Tejo, em 1967, e a sua ocultação e silenciamento pelo fascismo». Uma memória reprimida que traz até aos nossos dias a memória da guerra colonial e memórias de outros pontos do mundo, nomeadamente, a exploração sexual de menores, sobretudo da mulher.

Os espectáculos do Avanteatro fizeram uma viagem ao interior das nossas emoções e recordações e, como refere o texto de apresentação, «desde a obscuridade do tempo traz à luz e partilha momentos efémeros, mas lúcidos, irrepetíveis, mas belos, precários, mas verdadeiros, fugazes, mas livres».

Abrir da melhor maneira

Abertura foi feita com À espera de Beckett ou Quaquaquaqua, texto e encenação de Jorge Louraço, numa co-prodrução: Teatro da Trindade – Fundação INATEL, Teatro Constantino Nery – CM de Matosinhos, CM de Viana do Castelo. Uma homenagem a Ribeirinho, onde quatro actores tentam ensaiar À Espera de Godot, de Beckett, na esperança de que o autor viesse assistir ao ensaio, em dois momentos particulares da história de Portugal – a seguir às eleições de 1958 e após a morte de Salazar.

A noite de sexta-feira teve mais dois espectáculos: no exterior, InSomnio pelo Teatro do Mar. Um espetáculo multidisciplinar/ teatro de rua que integrou teatro físico, acrobacia aérea, vídeo e música original, com uma estrutura cénica alusiva a uma cama gigante, dotada de mecanismos, e diferentes planos de acção, com mutações ao longo da performance.

Na sala, Ermelinda do Rio, pelo Teatro da Terra, a partir de um texto de João Monge que se inspirou nas cheias do Tejo, de 1967, e narra pelos olhos de uma menina e de sua mãe a tragédia de sobreviver e assistir impotentes ao desaparecimento da família e amigos.

Trata-se de um espectáculo que é um  bom exemplo da memória reprimida e do papel que o fascismo teve na ocultação e silenciamento do que estava a acontecer. Tem a ver com o despertar da consciência dos estudantes quando, no esforço para levar às populações a informação que o fascismo tentava ocultar aobre o rasto de morte trazido pelas cheias, contactavam com as condições deploráveis em que as populações viviam. Os estudantes faziam diariamente uma cobertura jornalística para distribuir às populações, ao contrário do que faziam os órgãos de comunicação do fascismo que ocultavam este rasto de morte. Estudantes que verificaram que a população vivia em condições deploráveis, antes da tragédia o que despertou consciências, para a importância de lutar pela democracia e pela liberdade. A música pelo grupo Cosmos encerrou o espaço.

Teatro, música, cinema, debate

Na manhã de sábado, dedicado à infância, com Auto da Índia de Gil Vicente pelo Grupo Folia, com música original executada ao vivo por João Lima. Abordagem interessante desta obra que teve grande interacção com o público.

A tarde começou com o filme A respeito da violência, de Göran Hugo Olsson, que nos levou, nesta memória reprimida, à guerra colonial, em Angola, Moçambique e Guiné, e a outros países africanos. Um filme de solidariedade com as lutas anti-imperialistas e socialistas em todo o mundo na época, com imagens e histórias que ainda hoje estão presentes na memória.

A tradição das danças e cantares da China, este ano com o Grupo de artistas da Província de Fujian encheu a sala e surpreendeu pela técnica e rigor na execução que o público aplaudiu fortemente.

Ao fim da tarde tivemos um debate sobre Criação e fruição Cultural – Garantir 1% para a Cultura, com a participação de Ana Margarida de Carvalho, escritora, Ana Mesquita, deputada na Assembleia da República e Filipa Malva, cenógrafa, com a moderação de Pedro Pina, vereador da cultura da Câmara de Setúbal. Uma reafirmação da importância do serviço público de cultura e da universalidade de acesso à cultura, assim como, entre outros, do apoio aos criadores e ao movimento associativo e popular, para o que importa garantir 1% do Orçamento do Estado para a Cultura.

À noite os espectáculos A Noite da Dona Luciana de Copi, pelo Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e Farsa chamada «Auto da Índia» de Gil Vicente, pelo Teatro Estúdio Fontenova. A actuação do músico Remna encerrou este dia.

Oferta rica e diversificada

Na manhã de domingo a sala voltou a encher com o espectáculo para a infância Romance da Raposa pela Companhia de Teatro de Almada, partir do romance homónimo de Aquilino Ribeiro, revisitado e com uma abordagem contemporânea do agrado do público.

Os sons, em tons de aguarela, do acordeão e da gaita de foles pelo grupo Alma Menor e a música vibrante da Gran Sun Band completaram a programação musical deste ano.

O Avanteatro encerrou com Erêndira! Sim, avó… pelo Teatro «A Barraca», com direcção e adaptação de Rita Lello e com Maria do Céu Guerra. Um grande espectáculo que aborda a exploração sexual da mulher, na Colômbia, e replicável para tantos outros países pobres. Uma abordagem que repõe a questão da memória reprimida que só a verdade liberta.




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