• António Santos

A liberdade segundo Ashley Menser

Três pacotes de batatas fritas, dois queijos, uma palete de leite, três quilos de carne picada, um salmão fresco, quatro pacotes de cereais para o leite, uma caixa grande de manteiga, fiambre, pão de forma, almôndegas congeladas, champô infantil, sabonete líquido, desodorizante, duas caixas de tampões e um pacote de rolos de papel higiénico: 86 euros. É quanto vale a vida de Ashley Menser, 36 anos, dois filhos, condenada à morte por sair sem pagar de um supermercado nos EUA.

«Ela entrou no Walmart, pôs as coisas de que precisava dentro do carrinho e foi-se embora», explicou-me a mãe, Stephanie Bashore, «não roubou alcóol, não roubou drogas, não roubou roupa fina. Quando li a decisão do tribunal, só pensei “Não pode ser!”. E comecei a chorar. O Estado da Pensilvânia condenou a minha filha à morte porque o KFC [restaurante de comida rápida] não lhe paga o suficiente para ela fazer as compras».

Desde a moratória de 2005 que a Pensilvânia não executa ninguém mas, ao contrário do que é apanágio no Estado, Ashley Menser não foi condenada à morte por cadeira eléctrica, mas por cancro. «A senhora Ashley Menser não tem opções: é uma questão de vida ou morte», pode ler-se na carta endereçada ao tribunal pelos médicos do Instituto de Oncologia do Centro Médico Hershey. Na missiva, os médicos pedem o adiamento da pena de dez meses a que Ashley foi condenada ou o cumprimento em prisão domiciliária e avisam que, impedida de receber atenção médica permanente, «a senhora Ashley Menser só viverá mais um mês».

«O Juiz indeferiu todos os nossos pedidos e, há uma semana, ela foi mesmo presa», protestou a mãe. «No dia 22 de Janeiro, em que ouviu a sentença, tinha uma histerectomia para remover o cancro que já lhe vai nos nódulos linfáticos. O juiz recusou-se a adiar a sentença e ela não foi operada.»

«A Ashley tem stress pós-traumático [PTSD]. Há gente com PTSD que entra num centro comercial e começa a matar gente. A Ashley entrou num supermercado e não pensou no dinheiro. Foi um momento de confusão. Os salários baixos fazem com que as pessoas se passem. Ela passou-se. Mas se ela morrer, se eles a matarem, quem deviam ser condenados eram eles, os juízes, os donos do KFC, os donos do Walmart, o presidente, o governador e os procuradores. Porque ninguém quer saber. Para eles é só uma ex-toxicodependente com cadastro. A menos que sejas uma ex-toxicodependente com cadastro e dinheiro. Sem dinheiro não vales nada. E nós só nos temos uns aos outros.»

A família de Ashley, confessou-me Stephanie Bashore, faz parte dos 42,4 por cento de lares que, segundo o American Journal of Medicine, perde todas as suas poupanças para fazer frente às despesas de um familiar com cancro. «Se calhar agora somos nós que vamos ter de ir roubar para o Walmart. Também me vão condenar à morte? Chamas a isto liberdade?»




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