Linhas vermelhas e zeros à direita

Gustavo Carneiro

«Recorde», «expressivo», «extraordinário»: é este o tom quando o assunto é o lucro alcançado em 2025 pelos principais grupos económicos a operar em Portugal, quer se trate da banca ou da grande distribuição, dos combustíveis e da electricidade ou da multiplicidade de sectores que amealham fortunas à custa das “parcerias” com o Estado.

A Galp, por exemplo, registou um lucro recorde de 1,15 mil milhões de euros, semelhante ao alcançado pela EDP, representando este último um aumento de 44% (!!!) face ao ano anterior. A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, viu os lucros subirem quase 8%, para 646 milhões de euros, mais de metade dos quais serão distribuídos pelos accionistas. A Sonae fala de um «ano extraordinário», com lucros líquidos de 247 milhões de euros, uma subida de 11% face ao ano anterior. Os lucros finais da Brisa ainda não são conhecidos, mas só no primeiro semestre de 2025 alcançara 155,8 milhões de euros, mais 14,5% do que em igual período de 2024. Já os cinco maiores bancos, que representam mais de 80% do sistema bancário português, registaram em 2025 lucros acumulados de 5,22 mil milhões de euros, mais 5,9% do que no ano anterior. (Para que não haja dúvidas, mil milhões é um número enorme, com NOVE ZEROS à direita...)

Na maioria dos casos, estes lucros somam-se aos registados em anos anteriores, também eles «históricos», «extraordinários» e até mesmo, em alguns casos, «os maiores» até então…

Vem esta introdução, porventura demasiado longa e descritiva, a propósito de debates recentes – na Assembleia da República, na comunicação social e na sociedade em geral – sobre o que fazer face ao brutal aumento do custo de vida que a agressão dos EUA e de Israel contra o Irão está já a provocar, directamente ou por interposta especulação: os preços dos combustíveis dispararam quase de imediato, seguiram-se os do gás e da alimentação, e para breve poderão estar também os da habitação e de outros bens e serviços de primeira necessidade. Perante isto, somam-se declarações e propostas e tornam-se ainda mais evidentes as “linhas vermelhas” dos partidos da política de direita, da mais refinada à mais trauliteira: aconteça o que acontecer, nos lucros do grande capital não se toca. Que pague o povo (paga sempre!) e o Estado, por via da redução de impostos; controlo e redução de preços é que nem vê-los: nem nos combustíveis, nem no gás de botija, nem nos alimentos, nem nas taxas e comissões bancárias.

À memória vem o ano de 2022, quando o IVA Zero foi “compensado” por margens mais generosas, que não conduziram à baixa dos preços, mas a lucros ainda maiores – e não por acaso também «extraordinários» e «dos maiores de sempre», como serão seguramente os do ano que virá. Lucros obtidos, todos, à custa das dificuldades (também elas crescentes) da maioria.



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