Trump: imperialismo sem máscara
Por entre a indignação e a revolta que suscita cada declaração de Donald Trump há também uma virtude a assinalar. Durante anos assistimos à tentativa de disfarçar a acção imperialista dos EUA com a suposta defesa dos direitos humanos, com a promoção da liberdade e da democracia. Toda uma narrativa para justificar as “intenções benignas” – como disse Paulo Rangel para caracterizar a agressão dos EUA à Venezuela – dos EUA, da NATO ou da UE. Ora Trump, ao contrário de outros, não embrulha as agressões imperialistas com falsos pretextos. No meio da brutalidade que intencionalmente exacerba diz que quer tomar conta do petróleo da Venezuela. Afirma com todas as letras que quer mandar em Cuba e em todo o continente americano. Explica como pretende assassinar o próximo chefe de Estado. Intimida Espanha, aliada na NATO, por esta não lhe oferecer o território como base de agressão ao Irão, tal como a Dinamarca quando ameaça anexar a Gronelândia. Fala em construir resorts de luxo sobre os escombros da Palestina. Diz para quem o quiser ouvir que o objectivo é vender mais armas e petróleo aos seus aliados e tomar conta das riquezas da Ucrânia.
Este aparente desconcerto de Trump deixa muitos dos vassalos do imperialismo com os pés trocados. A primeira reacção é a de dizer que o homem não está bom da cabeça, que é errático, narcisista, imprevisível. Segue-se a tentativa de dissociação com o passado. Como se a guerra no Iraque, na Jugoslávia ou no Afeganistão, ou as centenas de agressões e acções de ingerência que os EUA promoveram em todo o mundo desde a II Guerra Mundial não se inserissem na mesma estratégia de domínio do mundo que está agora causa. E por fim, e porque o imperialismo domina cada vez mais o aparelho ideológico, segue-se a repetição acrítica dos argumentos do Pentágono onde o genocídio na Palestina é transformado em “guerra contra o Hamas” ou o Irão é reduzido ao “regime dos ayatolas”.
Com tudo isto, não se pense que o imperialismo prescindiu da mentira como forma de condicionamento e manipulação. O que temos é a arrogância e a prepotência imperialistas a assumirem-se como parte da estratégia de escalada e confronto, com um pendor cada vez mais reaccionário e perigoso, a que o desbocado Trump dá expressão. Mas mais do que força, tal estratégia é também manifestação das crescentes contradições e limites que ameaçam o seu domínio, a que a luta dos povos acabará por pôr fim.




