“As pessoas não têm filhos porque não podem”

Margarida Botelho

O Fundo de População das Nações Unidas fez um inquérito a 14 mil pessoas de 14 países, concluindo que «as taxas de natalidade estão a cair porque as pessoas não conseguem ter os filhos que desejam e essa é que é a verdadeira crise de fertilidade». Metade dos inquiridos apontaram como principal razão para não terem filhos «o custo da habitação, os trabalhos precários, o custo dos cuidados com a infância». A segunda e a terceira razões aparecem empatadas: a forma desigual como o cuidado às crianças pesa na vida e na carreira das mulheres e a falta de acesso a cuidados de saúde. Um em cada cinco inquiridos afirmou não planear ter filhos por medo das guerras e das crises – no fundo, por medo do futuro.

Referindo-se ao tipo de apoios necessários, diz Mónica Ferro, directora do Fundo, em entrevista à Renascença: «nenhum casal vai decidir ter um filho por causa de um cheque, se não tiver uma casa, se não tiver um emprego estável.» Óbvio.

A realidade portuguesa encaixa perfeitamente nesta análise. O último ano em que Portugal teve nascimentos suficientes para garantir a reposição das gerações foi em 1981. A última vez em que nasceram mais de 90 mil bebés foi em 2011. O menor número de nascimentos de sempre registou-se em 2021, em plena epidemia de COVID, com menos de 80 mil.

Pode haver discursos mais ou menos piedosos sobre o défice demográfico que o País atravessa, outros que culpam o egoísmo das novas gerações, e das mulheres em particular. Mas a verdade é esta: com salários que não chegam ao fim do mês, com vínculos precários, com casas inacessíveis, com falta de vagas nas creches e no pré-escolar, o plano de ter um filho, ou mais um filho, vai sendo adiado. Esta é mais uma consequência da política de direita. Insistir no pacote laboral, na liberalização da habitação ou em não construir uma rede pública de creches é o contrário do que o País precisa.

 



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