Pobreza na União Europeia: diagnósticos não chegam

Joel Moriano

A Comissão Europeia apresentou a sua tão propagandeada Estratégia de Combate à Pobreza, assumindo a “ambição” de erradicar a pobreza na UE até 2050. Este documento da Comissão parte de uma realidade que desmonta a propaganda da chamada “Europa social”: cerca de um quinto a população na UE está em risco de pobreza ou exclusão social, o que corresponde a 93 milhões de pessoas, entre elas 19 milhões são crianças.

Estes números são a demonstração do falhanço de décadas de políticas de neoliberais, de liberalizações e privatizações, de contenção salarial, precariedade laboral e compressão do investimento público.

A pobreza não é uma fatalidade nem uma consequência inevitável de crises sucessivas. É o resultado de opções políticas concretas, que colocaram os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros acima dos direitos dos povos.

A Comissão reconhece que o aumento do custo de vida empurra cada vez mais famílias para a pobreza. Reconhece que a pobreza atinge de forma particular os grupos mais vulneráveis, como as crianças, os jovens, os desempregados, as mulheres ou os idosos. Mas reconhecer a dimensão do problema não basta quando se recusam as medidas necessárias para enfrentar as suas causas.

A Estratégia fala de empregos de qualidade, acesso a serviços essenciais, apoio ao rendimento, combate à pobreza infantil ou de inclusão. São objectivos que ninguém contestará em abstracto. Mas a questão central é outra: como combater a pobreza mantendo políticas que promovem baixos salários, precariedade, desregulação laboral, enfraquecimento da contratação colectiva, serviços públicos fragilizados e regras que limitam o investimento público e com a competitividade a ser usada como pretexto para pressionar salários, direitos e protecção social?

Cerca de 8,3% dos trabalhadores na UE continuam em risco de pobreza. Sem valorização do trabalho e dos salários não há estratégia contra a pobreza que resista ao confronto com a realidade.

A habitação é uma das expressões mais visíveis desta chaga social e a Comissão admite-o. No entanto, o problema não se resolve com apelos genéricos, com mais mercado ou com plataformas de investimento. É preciso enfrentar a especulação imobiliária, controlar rendas e aumentar a oferta de habitação pública.

Há ainda uma contradição de fundo. Ao mesmo tempo que proclama o combate à pobreza sem se propor o aumento de um único cêntimo para este desiderato, multiplica-se a canalização de recursos para a militarização e para os grandes grupos económicos.

Erradicar a pobreza exige mais ambição e não mais propaganda ou proclamações vazias. Exige uma outra política. Uma política que valorize o trabalho e os trabalhadores, que reforce o investimento público e que afirme o direito de todos a viver com dignidade.

 



Mais artigos de: Internacional

EUA e China têm «muito a ganhar com a cooperação»

Após nove anos da sua anterior deslocação, o presidente dos EUA, Donald Trump, efectuou uma visita de Estado à República Popular da China, de 13 a 15 deste mês, onde se encontrou com o presidente Xi Jinping.

A ferrrovia é estratégica para o desenvolvimento

O deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Oliveira, promoveu no dia 15 uma sessão pública na Estação do Rossio, em Lisboa, sob o lema “Rejeitar a liberalização e a privatização. Por uma ferrovia ao serviço do povo e do País”, com a participação de dirigentes políticos e sindicais do Reino Unido, Bélgica e França.

Cuba não ameaça ninguém e a sua soberania deve ser respeitada

A agressão e as ameaças dos EUA contra Cuba não cessam de se intensificar. Uma nova Ordem Executiva do presidente Donald Trump agrava ainda mais o ilegal carácter extraterritorial do bloqueio, com o alargamento das sanções contra entidades ou pessoas que tenham qualquer tipo de relação...

PAICV vence legislativas e vai governar Cabo Verde

Nas eleições legislativas de domingo, 17, o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), até agora na oposição, obteve a maioria absoluta de deputados no parlamento cabo-verdiano. Segundo os resultados provisórios, o PAICV conquistou 46,6% dos votos apurados, seguido pelo Movimento para a Democracia (MpD),...

Malianos querem reforçar soberania

Milhares de malianos manifestaram-se, no dia 9, em Bamako e outras localidades, expressando apoio à luta que o governo e as forças armadas do país travam contra «múltiplos grupos terroristas e separatistas apoiados por potências estrangeiras». Duas semanas antes, a 25 de Abril, seis cidades do Mali, incluindo a capital,...