Não banalizar a corrupção

Carlos Gonçalves

O ex-PS e ex-ministro da Cultura da maioria de A. Costa, P. Adão e Silva (PAS), escreveu no Público «três exemplos de como a banalização do mal está para ficar». Positivo nas denúncias a Trump, a Farage e à violência na esquadra do Rato, PAS trata a matéria da «corrupção moral que se torna galopante», em que «parecemos condenados a assistir à erosão dos alicerces democráticos» e «em que a realidade ultrapassa as ficções distópicas».

Mas o texto escamoteia a realidade da corrupção, que é bem mais económica, social, política, jurídica e cultural, e não de natureza “moral”, que na melhor das hipóteses, digo eu, se resolverá após sérios avanços de medidas objectivas; este é um texto conformado, “quem diria” que são estas as consequências da xenofobia no Rato, do “populismo” no UK, do “trumpismo” na “democracia norte-americana”, por onde andou PAS a flanar(?), não viu, nem dá notícia de ver, os perigos de crescimento da corrupção, nem nas políticas deste governo, nem noutras realidades do País, não ouviu tantos avisos; o seu texto não coloca nenhuma saída para a sociedade, não há «algo de novo que traga um indício de mudança» (PAS), nada a fazer, portanto, nada de responsabilizar o sistema do capital financeiro ou de lutar e propor a sua transformação.

Não há espaço para escalpelizar os casos, mas é claro que o de Trump é superlativo: negociar através do Procurador Geral USA um acordo em que os seus negócios e da família ficam imunes ao crime fiscal e em que recebe 1,8 mil milhões de dólares para premiar os capangas é de uma dimensão de corrupção efectiva e “moral” nunca vista.

Em Portugal, é claro para nós que as “portas giratórias” estão no cerne da corrupção, com a apropriação capitalista como instrumento da sua natureza e realidade, importa por isso acabar com elas, esclarecer o perfil profissional de 31 cargos do Presidente da AR, decidir não restringir a fiscalização pelo Tribunal de Contas e travar a privatização da justiça fiscal nas arbitragens com o Estado, se tal não acontecer mais se alarga o caminho a fenómenos corruptivos.

PAS pode não querer ver estes “casos incómodos”, mas assim contribui para banalizar a corrupção, um mal cuja caramunha é a vitimização protofascista. Importa a denúncia “moral” e ainda mais a luta real.

 



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