70 anos de história
Historiadores e outros cientistas sociais não deixam, ainda hoje, de se surpreender quando estudam mais de perto a trajectória do povo da Guiné-Bissau ao longo das últimas décadas.
Interrogam-se, sobretudo, como foi possível a um pequeno povo formado maioritariamente por camponeses, levar a cabo uma luta de libertação nacional vitoriosa, derrotando um poderoso exército colonial, armado pelas potências da NATO e pelos regimes racistas da África Austral e chefiado por generais formados nas melhores academias militares do Ocidente.
Na verdade, depois de a Conferência de Berlim (1884-1885) ter «repartido» a África pelas potências europeias, os guineenses, como outros povos africanos, resistiram longamente à dominação estrangeira. Na Guiné, apenas em 1936 os colonialistas deram por findas as cruéis «guerras de pacificação», como designaram a submissão dos guineenses aos conquistadores.
Menos de uma década depois, em 1945, desembarcava em Lisboa, para estudar Agronomia, Amílcar Cabral, um jovem guineense, filho de pais cabo-verdianos, que sonhava transformar o mundo.
No ambiente de optimismo democrático do pós-II Guerra criado pela derrota do nazi-fascismo, Cabral cedo se envolveu com outros jovens progressistas nas lutas contra a ditadura salazarista. Ao mesmo tempo, com estudantes das colónias africanas – como os angolanos Agostinho Neto e Mário de Andrade, os moçambicanos Marcelino dos Santos e Noémia de Sousa, a santomense Alda Espírito Santo, o guineense Vasco Cabral –, preparou a participação nas lutas independentistas dos seus países.
Terminada em Lisboa a formação como engenheiro agrónomo, Cabral escolheu ir trabalhar na sua terra natal, entre 1952 e 1954, aprofundando o conhecimento da realidade guineense.
Impedido pelas autoridades coloniais de permanecer na Guiné, trabalhou como agrónomo em Portugal e em Angola. Em 1956, numa passagem por Bissau, fundou com outros patriotas guineenses e cabo-verdianos, a 19 de Setembro, o PAI (Partido Africano da Independência), que a partir de 1960 se assumiu como PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde).
Liderado por Amílcar Cabral, o PAIGC dirige vitoriosamente a luta de libertação nacional. Perante a inevitabilidade da derrota política e militar, os colonialistas recorrem a traidores infiltrados e assassinam-no, em 20 de Janeiro de 1973. Ao contrário do que esperavam, o PAIGC resiste, reforça a unidade, intensifica a luta em todas as frentes. Uma assembleia nacional popular reúne-se nas áreas libertadas do Boé e, em 24 de Setembro, proclama o nascimento da República da Guiné-Bissau, logo reconhecida pela maioria da comunidade internacional. Poucos meses depois, eclode em Portugal a Revolução de Abril: o fascismo é derrubado, o colonialismo português é derrotado.
Em vésperas de comemorar 70 anos, o PAIGC, fundado por Amílcar Cabral, tem, pois, uma longa e vitoriosa história, inseparável da independência nacional guineense e cabo-verdiana.
Por complexos que sejam os problemas que hoje enfrenta a Guiné-Bissau, as novas gerações de patriotas saberão trilhar os melhores caminhos para retomar a liberdade e a democracia, para reforçar a unidade nacional, para construir o país pacífico, desenvolvido e justo sonhado por Amílcar Cabral.




