• Silva Heitor

Rogério Paulo
Actor militante
Todos os povos têm o Teatro que pedem e que merecem».
(Rogério Paulo entrevista em 1968)


Quando em 2001 o Mário Jacques e eu empreendemos, sob o patrocínio da Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, escrever, a exemplo do que já havia sido feito com outras profissões, «Os Actores na Toponímia de Lisboa», síntese biobibliográfica , nascida da «vontade de fazer reviver, por lampejos que fosse, os corpos, as vozes, os risos, daqueles que foram ilustres exactamente por causa dos seus corpos, das suas vozes, dos seus risos das suas lágrimas», a quem a edilidade consagrara, numa placa, uma rua com o seu nome, em vão procurámos, nos roteiros mais recentes, o nome de Rogério Paulo.
Nome que, para além de grande actor reunia as características de cidadão exemplar. E que, talvez por isso mesmo, não existia praça, rua ou simples beco, em que ele figurasse. As suas ideias e atitudes não tinham sido lembradas, ainda que numa singela placa, anódina, que além desse nome apenas referisse a honrosa profissão de Actor.
Rogério Gomes Lopes Ferreira nasceu a 17 de Outubro de 1927, na Vila de Silva Porto, Angola, e faleceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1993. O seu corpo esteve exposto, em câmara ardente, no Salão Nobre do Teatro Nacional, numa merecida homenagem, que fazia antever outras mais que nunca se realizaram.
Iniciou a sua actividade artística no Teatro Estúdio do Salitre, sob a direcção de Gino Saviotti e bem cedo entrou para o elenco do Teatro Nacional. Quando o governo de então decidiu afastá lo, Rogério Paulo não interrompeu nem a sua actividade política nem a sua carreira de actor. O estrangeiro abriu lhe as portas, ao mais alto nível, não só na sua qualidade de actor como de encenador. Mas foi em Cuba onde mais se expandiu. Aí o acolheu a Casa das Américas, como se cubano fosse.
Estivemos com ele, no Teatro Villaret, em 1968, após uma digressão pela Bélgica, onde fizera Shakespeare e encenara «A Balada do Grande Macabro», de Ghelderode. Nutrindo o maior apreço pelo teatro de amadores entendia que a sua principal função era justamente contribuir para a propaganda do Teatro, inclusivamente na preparação de espectadores para o teatro profissional. Aliás, a sua primeira encenação tinha sido
levada a cabo num grupo de amadores. Precisamente a tão conhecida Sociedade Guilherme Cossoul.
Tanto no teatro como no cinema foi riquíssima a sua actuação, apesar dos impedimentos constantes que lhe eram impostos pelo regime. Desde «A Garça e a Serpente», em 1952, em cinema, ao «O Judeu», em 1996, de Santareno, em teatro, que teria sido o seu último trabalho, as suas encenações e interpretações de relevo foram às dezenas.
Duma cultura exemplar, traduziu e escreveu, nomeadamente «Um Actor em Viagem», escrito em Cuba entre 1970 e 1972, em que descreve a grande evolução do teatro cubano depois de Fidel. Um livro que muitos actores deviam ler. «Produzir Arte e Cultura» diz Rogério «para uma sociedade em transformação radical, tornou se o problema dos criadores cubanos». E, mais adiante: «Mas que Cultura? Cultura, numa palavra. Mas a Cultura é sempre o reflexo da sociedade que a produz e determina».
Quanto à sua actividade política, sobretudo ao apoio dado aos camaradas na clandestinidade, não são, com certeza, os leitores deste jornal que a ignoram. Mas não seria menos interessante que se ponderasse a realização de uma justa homenagem ao homem e ao artista que dedicou a sua vida à luta pela liberdade, pela democracia, por uma sociedade justa e solidária.
A esse actor, verdadeiramente militante (diria invulgarmente militante) a que nem o 25 de Abril deu carta de alforria para que os serviços de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa tivessem, catorze anos após a sua morte, colocado no mínimo uma placa, com o seu nome, numa dessas tantas ruas que por aí andam envoltas em designações mais que duvidosas. E já não pedimos o seu nome para um teatro, como já se tem praticado com outros nomes, de actores ainda vivos e de menor merecimento.


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