• Albano Nunes

Quem decide é o grande capital financeiro e especulativo
Contra o medo e a confusão

A eleição de Donald Trump coloca sem dúvida interrogações quanto a eventuais desenvolvimentos da política externa dos EUA. A prática responderá a esta questão, que não é de menor importância, dadas as ambições da principal potência imperialista e o seu envolvimento directo em conflitos e processos negociais – da decisiva batalha de Alepo aos tratados ditos de livre comércio como o TTIP – de grande impacto nas relações internacionais. Mas por mais iconoclasta e delirante que possa parecer o discurso do seu presidente, não é dele que dependem alterações significativas na política dos EUA pois finalmente quem decide é o grande capital financeiro e especulativo, é Wall Street, é o poderosíssimo complexo militar-industrial, é o punhado de grandes multinacionais de base norte-americana que sugam a parte de leão da mais-valia criada em todo o mundo.

Claro que no quadro de grande instabilidade e incerteza que caracteriza a situação internacional, não pode excluir-se sobressaltos e viragens, inclusive na política das grandes potências em consequência do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, da agudização das contradições inter-imperialistas, de reais diferenças de opinião na classe dominante sobre o modo de lidar com a crise e enfrentar inevitáveis explosões de descontentamento e revolta popular. Tudo isto deve estar presente quando, a propósito e a despropósito da eleição de Donald Trump e de certas afirmações suas envolvendo a NATO e a «Europa», se desenvolve uma densa cortina de medo e confusão atrás da qual se esconde o propósito de aprofundar ainda mais a integração capitalista europeia e a sua natureza de bloco imperialista, articulado nas suas opções de classe com o poderoso aliado (e rival) do outro lado do Atlântico.

Fala-se do «mundo na era Trump», da «ameaça Trump», da «onda populista» que da Europa se estenderia aos EUA, e no estímulo que por sua vez a eleição de Trump representaria para as forças de extrema direita em crescimento em numerosos países da União Europeia. Mas não se diz uma só palavra sobre as causas socioeconómicas e ideológicas de uma tal situação. Causas que, radicando na própria natureza do capitalismo, se situam precisamente nas políticas de exploração, de liquidação de direitos laborais e sociais, de ataque a liberdades e direitos fundamentais, de empobrecimento da democracia mesmo na sua versão liberal burguesa, na opressão de sentimentos nacionais. A verdade é que, agitando de um lado a «ameaça do terrorismo» e do outro a «ameaça Trump» e derramando lágrimas de crocodilo pelo perigoso avanço do racismo e do fascismo na Europa, o fio condutor de numerosos artigos de opinião vai no sentido de reforçar a natureza supra-nacional e militarista da União Europeia, pugnando pelo reforço da relação transatlântica e da NATO, propondo mesmo um brutal aumento das despesas em armamento como defendeu Trump durante a campanha eleitoral. A este respeito são particularmente elucidativos os escritos de TS no Público assim como um longo artigo de Jorge Sampaio naquele mesmo jornal (14.11.16) que, num «exercício de militantismo europeu» de que o próprio se reclama, começa por reconhecer a profunda crise que grassa na Europa dos monopólios e, preocupado com a «incerteza» nas relações com os EUA, acaba a defender «que a Europa do euro – a dos 19 do euro – seja o verdadeiro núcleo duro de uma UE reformada», não resistindo de passagem à lamentável tentação de amalgamar o patriotismo do PCP com o nacionalismo reaccionário.

A resposta aos profetas do medo e da confusão só pode ser uma: prosseguir com determinação a luta contra o fascismo e contra a guerra, esclarecer sobre as suas causas reais, trabalhar para erguer uma ampla frente contra o imperialismo e pela paz.

 



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