Não foi o fim (só um passo atrás)
Nos anos 90 do século passado, o autor norte-americano Francis Fukuyama questionava se o capitalismo hegemónico que se afirmava à escala planetária com o desaparecimento da União Soviética e do campo socialista europeu seria o “fim da história”. Se o que chamava de “democracia capitalista liberal” seria ou não (ele concluiu que sim) o estádio final do processo histórico, capaz de assegurar a todos a liberdade, a igualdade, a estabilidade.
Encomendada ou não (importa pouco para o caso), a tese do pensador-coqueluche daquele tempo tornou-se dominante e foi massivamente replicada: o capitalismo, propositadamente confundido com democracia, era o melhor dos mundos possíveis e não havia lugar, nem propósito, a alternativas. A vitória de Fukuyama era a derrota de Marx.
Com esta tese como pano de fundo, outras doutrinas e práticas fizeram o seu caminho: a globalização capitalista, a expansão da NATO, o Projecto para o Novo Século [Norte-]Americano. À esquerda, houve quem capitulasse e abandonasse perspectivas transformadoras: partidos comunistas desapareceram ou deixaram de o ser e a social-democracia converteu-se definitivamente ao neoliberalismo.
Mas para lá das teorias, a realidade impõe-se – e esta não era, como não é, dada a grandes entusiasmos. A globalização foi, afinal, a da pobreza e das desigualdades, da desindustrialização e da financeirização, das privatizações e da precariedade, dos “acordos de livre comércio” e da subordinação das economias e dos Estados nacionais ao poder quase sem limites das multinacionais. Quanto à “paz universal” que – prometeram-nos – se seguiria à “Guerra Fria”, deu lugar à guerra imperialista sem fim: no Iraque, na Jugoslávia, no Afeganistão, na Líbia, na Palestina, no Irão… Ao contrário do anunciado por Fukuyama, a História não acabou, ou não fosse ela a da luta de classes – e essa aí está, vibrante.
Quando os 12 mais ricos possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da Humanidade, cerca de 4 mil milhões de pessoas; quando cada “crise” (financeira, sanitária, militar…) corresponde a lucros escandalosos para uns poucos e a vidas cada vez mais difíceis e precárias para a grande maioria; quando a potência imperialista dominante multiplica guerras e bloqueios procurando travar a sua decadência e ameaçando arrastar-nos a todos nela; quando impressionantes recursos são desviados para armamentos cada vez mais sofisticados e mortíferos; quando o meio ambiente é sacrificado à gula insaciável do capital – que ninguém nos venha dizer que é este o fim da História, que não há alternativas e que este não é tempo para revoluções: Quantas ocorreram “fora do seu tempo”? Quantas mais ocorrerão?
É na luta concreta, nos combates de hoje, que se constroem as alternativas e se forjam as revoluções de amanhã.




