Sofismas e metáforas de um governo falso

Jorge Cordeiro

Por escassa novidade que representará, a recandidatura de Montenegro à liderança do seu partido não terá suscitado o interesse mediático – naturalmente sujeito ao crivo editorial atento que está à máxima dominante de que “o sol quando nasce não é para todos” – com que estas ocasiões costumam ser bafejadas. Ainda que se melhor escrutinados os elementos que a rodearam, seja a moção apresentada e as declarações que a acompanharam, o que ali está presente exige um olhar mais cuidado pelo que de ameaçador se desvenda.

O recurso a sofismas e metáforas com os exercícios que lhes correspondem para atribuir características de algo real a algo imaginário ou para na base de um argumento aparentemente lógico esconder algo estruturalmente falso com a intenção deliberada de enganar outrem, parece ter-se tornado base doutrinária de uma governação que faz da propaganda o seu eixo central. Depois da inicial proclamação de “Transformar Portugal” – que, conhecidos os propósitos governativos, deve ser entendida como “dar cabo do País”, aí temos na novel moção agora presenteada à massa “social-democrata”, “Trabalhar – fazer Portugal maior”, que, inspirada nos primórdios cavaquistas, também só pode ser lida com o tom ameaçador que já por si representava o refrão da recente cantiga eleitoral do PSD “Deixem o Luís trabalhar”.

Olhando para o que aí se desenha de novas ofensivas contra direitos, observando o Portugal real marcado pelas crescentes dificuldades na vida da maioria com o avolumar de injustiças e desigualdades e não o de um país imaginário numa «rota de crescimento económico» que Montenegro apregoa, registando o que de propósito se esconde na sua obsessão reformista, limitada, segundo ele, por forças de bloqueio e por inexistência de poder absoluto, fácil será perceber a agenda que, animada por slogans, metáforas e sofismas, ali se esconde.

Num momento em que o Governo insiste, perante a ampla rejeição dos trabalhadores, em impor um pacote laboral que constitui uma declaração de guerra a quem trabalha e uma peça mais nesse processo de aumento da exploração e de liquidação de direitos que o capital e quem o serve ambicionam, a ideia de trabalhar para fazer um país maior só pode ser recebida com o desprezo equivalente ao que de falso e cínico aquele slogan transporta.

 



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