• Isabel Araújo Branco

Dois protagonistas de Abril
E o povo saiu à rua
Na tarde de 25 de Abril de 1974, partilharam a boleia de uma chaimite na Rua do Carmo. Anos mais tarde conheceram-se… e reconheceram-se numa das fotos mais emblemáticas daquele dia. Eis Francisco Carrilho e Aníbal Guerreiro, dois dos protagonistas da revolução.
Faz amanhã 29 anos. Lisboa encheu-se de gente, apesar dos apelos do MFA, na rádio, para que ninguém saísse de casa. Mas quem ligou a isso? Veio tudo para a rua, tomar o destino nas mãos, comemorar algo que estava para vir e que o povo só aceitava se fosse bom, gritar bem alto tudo o que lhe passava na alma como se o mundo tivesse mudado de um dia para o outro. E não é que mudou mesmo?
Aníbal Guerreiro e Francisco Carrilho passaram o dia 25 de Abril – o tal, o original, o de 1974 – nas ruas de Lisboa a gritar «Vitória!». Meteram conversa com desconhecidos, sorriram sozinhos, saltaram à frente de todos e partilharam um tanque. Apanharam a boleia pela Rua do Carmo acima, direitos ao Chiado, não que as pernas não aguentassem mais – já tinham passado muitas horas, mas o entusiasmo não diminuía –, mas porque as chaimites eram deles e eles também eram das chaimites. Quem guiou quem, rua acima? Sabe-se lá.
Aníbal e Francisco encontraram-se, possivelmente trocaram algumas palavras, mas perderam-se de vista. Naquele dia todos eram amigos… Anos mais tarde conheceram-se na construção da Festa do Avante!, ambos militantes do PCP, mas só há três anos descobriram que estiveram lado a lado naquele tanque e que faziam parte de uma daquelas célebres fotografias de chaimites repletas de gente a gritar pela liberdade que finalmente estava aí.
«Eu morava em Moscavide e eram umas sete da manhã quando passei pelo aeroporto e vi as anti-aéreas preparadas. Percebi que havia qualquer coisa, mas só soube quando cheguei ao trabalho e ouvi os apelos na rádio», recorda Aníbal Guerreiro. Nesse dia já não trabalhou. Deixou a oficina em Alvalade e foi para a Baixa. «Andei até às tantas da noite… e nos dias seguintes também. O pessoal começou todo a subir para cima da chaimite e eu também fui, não só daquela, como de outras.»
Em 1974, Francisco Carrilho vivia em Queijas, mas a distância não o impediu de se juntar aos festejos populares, participar na História do País e ajudar os soldados do MFA a derrubar a ditadura.
«Nessa noite quando me levantei, ouvi na telefonia que se estava a passar alguma coisa e fui para um café ao pé de casa. Estava lá um colega meu do trabalho que chorou todo o dia, de manhã à noite, emocionado. Lembrava-se daquilo que passámos em todos aqueles anos. Depois vim para Lisboa e era aquela euforia toda, com a grande alegria da liberdade. Aquele dia não tem explicação», afirma.
A população encheu as ruas da cidade. «Depois de ouvirmos aquilo na rádio, de passarmos tanta coisa com a ditadura, tínhamos de ir para a rua manifestar a nossa alegria. Ficávamos em casa a dormir? Nem pensar nisso! Qualquer português que não gostasse do regime tinha de vir para a rua, expandir o que estava cá dentro. Aquilo foi uma loucura!»

Conquistas

«Naquele dia e no dia seguinte comecei a andar com o povo», diz Aníbal Guerreiro. Quase todos os dias aconteciam coisas importantes, fosse nas lutas concretas de cada empresa ou na vida política nacional. «Logo após o 25 de Abril, eu e os meus colegas apresentámos um caderno reivindicativo na empresa. Começou a criar-se as comissões de trabalhadores e as comissões sindicais», acrescenta. «Eu ganhava cerca de oitenta escudos por dia. O patrão já me pagava acima da média e eu não podia subir de categoria. Se não fosse o 25 de Abril não conseguia atingir alguns objectivos profissionais, como chegar a oficial de primeira.»
Francisco Carrilho não tem dúvidas: se não fosse a luta dos trabalhadores nos seus locais de trabalho, a situação não evoluiria tanto. «A luta de um povo é a coisa mais bonita que existe e a luta pela melhoria de vida tem de ser feita pelos trabalhadores, ninguém a faz por eles.»
«A vida melhorou muito em diversos aspectos. Só podermos falar! Passámos a ter um ordenado mais alto, a comer melhor… Eu alguma vez pensei que ia viver numa casa como a minha! E tudo com o meu salário, mais nada. Por isso eu digo que é lindo ser do PCP. Se não fosse o Partido não tínhamos muitas coisas que existem hoje», sustenta.
Os salários aumentaram, as condições de vida melhoraram, as empresas foram nacionalizadas, iniciou-se a reforma agrária nos latifúndios do Alentejo. «Foi a altura em que os operários tiveram as melhores condições de vida. Íamos ao Alentejo e víamos os campos todos semeados de trigo, cevada, aveia, todos os cereais», comenta Carrilho.
Aníbal Guerreiro acrescenta mais uma importante conquista da revolução: a Constituição. «Ainda hoje, apesar de muitos atentados, é uma das grandes conquistas do 25 de Abril. Os governos que vieram a seguir têm tentado destruir tudo isso.»

O passado

Para trás ficou um mundo diferente, com salários baixos, muitas horas de trabalho, fome e repressão. Órfão de pai e mãe aos 16 anos, Aníbal Guerreiro começou a trabalhar aos 13 anos como operário metalúrgico. «A vida levou a que eu tivesse de lutar por mim próprio. Na Mouraria, na Graça, na Madragoa, nos bairros em que vivi, apercebi-me de lutas. Havia vizinhos que eram presos pela Pide. Lembro-me das lutas dos trabalhadores e dos estudantes de 1969, das cargas policiais… Nesses anos houve a luta pelas oito horas de trabalho, a semana americana e depois a semana inglesa…»
A guerra colonial era outro grande pesadelo para as famílias portuguesas. «Não fui para lá por causa de um problema nos olhos, mas cheguei a pensar que desertava, se fosse apurado. Era uma guerra injusta, não tinha nada connosco, os meus amigos que lá tinham estado contavam histórias horríveis…»
Natural de Nisa, Francisco Carrilho veio para Lisboa aos 20 anos à procura de emprego. «No Alentejo passávamos muita fome, havia muita falta de trabalho e muita repressão.» Conversava sobre política num café com amigos, discretamente e sempre tentando prevenir as denúncias. «Alguém chamava a Guarda Republicana e eles chegavam logo. Falávamos sobre o regime, que aquilo não prestava, o que a gente queria e que era preciso o povo se revoltar contra isso.»
Na Lusalite, a fábrica onde trabalhou durante vários anos, procurava organizar os colegas. Pelo risco que corria era considerado maluco. «Uma vez decidimos falar com o patrão para nos aumentar o ordenado por trabalharmos à noite. Quando chegou a altura só fui eu e mais outro. “Ou é assim ou a malta não trabalha depois da meia-noite”, dissemos nós. Era um prejuízo do diabo para a empresa e ele deu o barco a torcer. Aquela estava ganha, quase fizemos uma festa lá dentro. Noutra altura, foi por causa dos transportes. Não havia autocarros para voltar para casa de noite e tínhamos de ir a pé. É um bom bocado, de noite, sem luz, ao frio e à chuva. Partimos para a luta e tiveram de nos dar transporte.»


Partido de classe


Em 1974, Francisco Carrilho tinha 37 anos e Aníbal Guerreiro 22. O primeiro tornou-se militante do PCP logo nesse ano e inseriu-se na célula da Lusalite, na altura com mais de cem camaradas. Guerreiro entrou em 1975. «Entre tudo o que começou a haver para aí, achei que o Partido era o único dedicado à minha classe e àquilo que eu queria para Portugal», declara.
«Foi o PCP, numa luta que já vinha de trás, que conseguiu orientar os trabalhadores no caminho da revolução. O PCP representava a força das massas. Depois, houve partidos que tiveram um papel de traição, como o PS. Ser do PCP significava muito. Havia orgulho em ser do Partido», recorda.
Carrilho acrescenta que «o PCP foi o partido que sempre lutou contra a repressão e as más condições de vida que havia no nosso país. Aderir ao PCP na altura do 25 de Abril era a coisa melhor que podia haver. Era o único partido que defendia os trabalhadores. Ser do PCP – e agora ainda mais – era ser uma pessoa séria e honesta.»
Em 1985, Guerreiro torna-se funcionário do PCP. «Na altura as minhas duas filhas eram pequenas e foi um bocado complicado porque já tinha um salário de mais de 60 contos. No campo monetário, foi voltar para trás. Mas, por amor à causa, decidi tornar-me funcionário. Não estou arrependido, pelo contrário.»
Aníbal Guerreiro olha com preocupação para o futuro. «O País está cada vez mais a cair na ruína, o número de desempregados aumenta, muitas empresas são encerradas ou entram em falência… A situação é muito preocupante, em especial para as novas gerações. Não sei como será o futuro. Os jovens vão conseguindo trabalho, mas nunca estão seguros. A partir dos quarenta anos uma pessoa já não consegue arranjar emprego. Em 1974, se trabalhasse a um domingo, recebia a triplicar; hoje, querem que o ordenado seja a singelo, como se fosse um dia normal.»
Francisco Carrilho partilha este ponto de vista. «A seguir ao 25 de Abril, as empresas laboravam. Os operários tinham o seu posto de trabalho assegurado e tinham o seu ordenado. Hoje é ao contrário, não há emprego ou o emprego é precário. Os culpados disso são os governos do PS, do PSD e do CDS. Isso vem desde 1976», acusa.
«Se as empresas encerram, a culpa não é dos trabalhadores. Muitas nem sequer estão falidas. E depois as pessoas esperam anos e anos para receber os salários em atraso. Muitas nem chegam a receber. Se os governos se preocupassem com os problemas do País, isto não acontecia», garante.



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