O desenho em Festa

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«O desenho é colocar uma linha em volta de uma ideia», escreveu Matisse, um pintor cujo pincel desenhava frescuras, danças e festas e cujas cores nos encantam, mais de um século após terem sido aplicadas na tela ou no papel. Esta frase fomos encontrá-la num belo caderno que apresentava a exposição de desenho patente ao fundo do Pavilhão Central da Festa do Avante!. Ou então esta outra frase, de Paul Klee, onde o desenho parece encontrar-se ausente, no meio da cor que sobressai do fundo negro de muitas das suas obras: «Um desenho é simplesmente uma linha que vai dar um passeio.» Ou ainda, repescando num texto de Le Corbusier, o arquitecto cujo desenho foi a base de construções belas e úteis para morar: «Eu prefiro desenhar a falar. O desenho é mais rápido, e deixa menos espaço para a mentira.»

Isto dizia ele. Pois, para o comum dos mortais, que mordem a língua na dificuldade de fazer uma linha dar um passeio ou que têm a palavra mais rápida do que o sofredor gesto de exprimir uma ideia através de linhas e de sombras, o desenho não é uma facilidade.

Estas frases deixamo-las aqui para tentar dizer ao leitor que o desenho não é aquela coisa tão simples como se pode supor e que também não é fácil ter-se uma ideia que reuna todas aquelas que passam na cabeça dos artistas.

Assim, na bela exposição que de Estremoz nos foi trazida para partilharmos o gosto de a apreciar, há desenhos que são linhas e desenhos que são cores, há-os finos e «rápidos» e outros elaborados e com o peso de pinturas. Onde acaba o desenho e começa a pintura? Hoje não é fácil dizer, e assim, percorrendo o caminho de obras realizadas nos anos vinte e «acabando» nos finais do século passado, a surpresa junta-se à admiração. Foi com sincero prazer que fizemos esse caminho, vendo alguns autores «crescer» pelos anos fora, num arco (ou parábola?) que a experiência e o saber vão urdindo em cada um de nós. A exposição que nos foi apresentada pela Comissão Executiva das Artes Plásticas da Festa do Avante! fica de parabéns por ter tido a ideia de ir a Estremoz buscar um acervo de obras da Colecção Galeria de Desenho. Esta Galeria, fruto da ideia do nosso camarada Rogério Ribeiro, recentemente falecido, que a colocou em movimento a partir de uma sua exposição realizada em 1981 é, provavelmente, uma das melhores do País. E hoje, a partir da ideia do também camarada José António Flores, os visitantes da Festa tiveram a oportunidade de apreciar muitas das obras de algumas dezenas de artistas. E as obras tiveram a felicidade de serem vistas por muitos milhares de pessoas. Apenas uma nuvem a ensombrar este acontecimento: a falta que nos fez a presença do artistas plástico que é José António Flores, que sofreu um grave acidente de viação. Daqui lhe desejamos rápidas melhoras. Para podermos, com ele, ter acesso a mais arte na Festa do Avante!

LM



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