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Resgatar a Palavra

Quando se entra no espaço em que estão expostas as obras de José Araújo há uma evidência imediata sublinhada por um formato sem sobressaltos: o artista impôs deliberadamente uma condicionante que disciplina o seu trabalho e o obriga a maiores exigências para que cada uma das obras adquira autonomia significante. Um segundo olhar traça uma linha comum entre todas as obras como se se desdobrassem numa repetição de uma obra chave, um erro de distonia visual que se desfaz imediatamente quando depois de ver a primeira obra se olha para a sequente e que se irá confirmar no percurso pelos trabalhos em que dentro de cada um dos temas, As Palavras não Dizem Tudo, Pequenas Notícias, Palavras com Missão Humanitária e O que as Palavras não Dizem, se desdobra o não enunciado tema chave, A Palavra.

Estes trabalhos de José Araújo são desenhos e colagens com uma grande economia de processos, austeros, simples, sóbrios contra o excesso de ruídos que invadiram sobretudo as nossas paisagens urbanas e degradaram substantivamente a palavra, o peso da sua importância para a resgatar traçando-lhe as fronteiras em que se encerram e limitam, mas não lhe retiram força interior.

O que é surpreendente nesta exposição é José Araújo, colocando sempre em plano uma intensa e complexa reflexão sobre o desenho e a colagem, nunca entrar pela óbvia tentação das derivas formalistas e manter um rigor que nunca se degrada. Com estas colagens-desenhos, escreve um manifesto em prol de A Palavra, a evidência dos limites de A Palavra em paralelo e simultâneo com o seu peso significante, num tempo saturado de imagens, formas e sons a que o artista impõe filtros que reduzem e depuram essa envolvente para tornar mais eloquente A Palavra, num trabalho de construção-desconstrução em que a subtrai das aparências para lhe dar substância.

 



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