A guerra do avesso da guerra

António Santos

O avesso da guerra imperial contra o Irão é a guerra social contra os EUA: aquilo que por fora faz pontaria às crianças iranianas, aponta por dentro às crianças americanas. Dito de outro modo: os planos de explodir o Irão ameaçam implodir os EUA. Assumiu-o Trump, sem flores de retórica e com lixo entre os dentes, no início do mês: «Não podemos tratar das creches, do Medicare, do Medicaid [programas de saúde pública para os mais vulneráveis]. Todas essas coisas individuais… podem ser os Estados a tratar disso. Só temos de tratar duma coisa: protecção militar (…) Estamos a fazer guerras, não podemos tratar das creches».

Dois dias depois, o magnata apresentou o orçamento para 2027: mais 445 mil milhões para a guerra, um aumento de 42% em relação a 2026 para uns fabulosos 1,7 biliões de dólares (quase seis vezes o PIB de Portugal). Se o avesso de um número é uma quantia negativa da mesma coisa, uma precisa ausência quantificada, uma falta que se sente, então, no forro de um orçamento para a guerra encontraremos outra guerra.

Os mesmos que matam centenas de meninas numa escola do Irão, não poupam as crianças dos EUA. Um alvo a abater é o Programa Especial Suplementar de Nutrição para Mulheres, Bebés e Crianças (WIC), sem o qual metade das mães, bebés e crianças nos EUA não conseguiriam comer fruta nem vegetais. A Casa Branca quer cortar o valor deste subsídio de 54 para 13 dólares mensais no caso das mães lactantes e de 27 para 10 dólares mensais no caso dos bebés e das crianças. Da mesma forma, este orçamento propõe cortar em 69% o financiamento dos programas escolares de apoio às crianças pobres.

Para poder explodir as casas dos iranianos, a administração Trump precisa de destruir a habitação do seu próprio povo. Na calha para a eliminação também encontramos o Programa de Parcerias para o Investimento na Habitação (HOME) que, desde os anos 90, já ajudou a construir e reabilitar mais de 1,3 milhões de casas acessíveis para a classe trabalhadora. O mesmo destino teria o Programa de Assistência Energética para Habitações de Baixos Rendimentos (LIHEAP).

Tal como no Irão, quem mais sofre com os ataques dos EUA são os mais pobres e os trabalhadores. O orçamento propõe acabar com os chamados Subsídios em Bloco para Serviços Comunitários, que apoiam 10 milhões de pessoas em situação de miséria extrema. Trump também quer cortar em 10 por cento o orçamento da Divisão de Horários e Salário do Departamento do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento do salário mínimo, do trabalho infantil, de horas extraordinárias e do pagamento dos salários.

Se no Irão os EUA bombardeiam universidades, hospitais, laboratórios e monumentos, no seu próprio território não é diferente. Este orçamento vem cortar em 13%, 6 mil milhões de dólares, o financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde, a principal instituição de investigação em Saúde. No total, os programas federais para o ensino superior sofreriam um corte de 81%. Já os programas de educação técnica e profissional, literacia e alfabetização para adultos, como os Job Corps, sofreriam cortes de 90%.

A guerra imperial no exterior e a guerra social no interior são ambas expressões necessárias da mesma lei do movimento, uma unidade de contrários, uma relação dialéctica, entre aparência e essência, entre o que existe por dentro e o que se vê por fora, articuladas pela insaciável sede do lucro.

 



Mais artigos de: Internacional

Combate à pobreza exige política integral e efectiva

O deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Oliveira, participou em Lisboa numa audição sobre o relatório que reclama da UE uma efectiva estratégia de combate à pobreza, do qual foi relator e que foi entretanto aprovado. Participaram na audição diversas entidades portuguesas envolvidas neste combate.

Irão resiste à agressão dos EUA e de Israel

As conversações entre o Irão e os EUA, em Islamabad, nos dias 11 e 12, intermediadas pelo Paquistão, foram interrompidas sem que as partes chegassem a acordo, dadas as exigências dos EUA. Com o cessar-fogo ainda em vigor, embora não cumprido por Israel, que continua a agredir brutalmente o Líbano, Washington decidiu impor um bloqueio naval ao Irão.

Vietname: o povo é o protagonista principal

Tô Lâm, Secretário-Geral do PCV, foi investido no cargo de Presidente do Vietname, após ter sido eleito durante o primeiro período de sessões da XVI Legislatura da Assembleia Nacional.

Cuba reafirma soberania e resistirá perante agressão

«Nós somos um país pacífico, não promovemos a guerra, mas a solidariedade e a cooperação», afirmou o Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, a uma estação de televisão norte-americana, reafirmando a determinação do seu povo em resistir, mesmo perante uma eventual agressão militar norte-americana.

Venezuela foi alvo desde 2014 de quase um milhar de sanções

A República Bolivarina da Venezuela é alvo, desde 2014, de medidas coercivas unilaterais impostas pelos EUA, por outros países e pelo sistema financeiro internacional, contra a economia, as finanças públicas, a indústria petrolífera e o comércio externo. A denúncia é do Observatório Venezuelano Antibloqueio, um organismo...

Eleições na Hungria

Na Hungria, os resultados das eleições legislativas do dia 12 deram uma ampla maioria parlamentar ao Tisza, partido que não tinha qualquer eleito no parlamento húngaro e nem havia participado nas últimas eleições legislativas. O seu líder, Péter Magyar (que até há poucos anos integrava o Fidesz, de Viktor Orbán), será o...

O tira-teimas da UE nos preços da energia

A presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, anunciou esta semana os planos da União Europeia (UE) para fazer face à subida dos custos da energia em consequência da agressão dos EUA e Israel ao Irão. Em 44 dias de guerra estima-se que a subida dos custos da energia tenha já um impacto de 44 mil milhões...