Nem um bocadinho, nada!

Gustavo Carneiro

(É possível que este texto já esteja desactualizado quando for publicado, pois a realidade move-se depressa por estes dias, mas o essencial é intemporal)

Na madrugada de 8 de Abril, a horas do fim do “ultimato” – mais um! – a que se seguiria o desaparecimento de uma “civilização inteira”, EUA e Irão anunciaram um cessar-fogo de duas semanas (uma já lá vai, entretanto).

As negociações que ocorreram no fim-de-semana no Paquistão, e que terminaram sem acordo, tiveram por base a proposta iraniana de 10 pontos, e não os 15 apresentados pelos EUA, o que não deixa de ser revelador, por mais que a administração norte-americana tenha tentado esconder o recuo atrás do “sucesso” de ter conseguido reabrir o Estreito de Ormuz, onde até ao início da agressão dos EUA e de Israel contra o Irão não se verificava qualquer perturbação e que é hoje um ponto de tensão sensível, com o bloqueio anunciado por Trump.

Mas mais do que saber a autoria do documento-base para as negociações, importa ver o conteúdo daquilo que os EUA foram obrigados – pela resistência iraniana – a aceitar como ponto de partida: a manutenção do controlo iraniano sobre o Estreito de Ormuz, o levantamento das sanções, o pagamento de indemnizações, a retirada das forças norte-americanas do Médio Oriente e o fim das operações militares em todas as frentes. O primeiro-ministro paquistanês, mediador das negociações, confirmou que sim, o Líbano estava incluído no cessar-fogo.

E havia outro ponto, deixado aqui propositadamente para último: um sério compromisso de não agressão por parte dos EUA, para que esta trégua não seja usada, como outras foram, para reorganizar, reagrupar e reabastecer as forças militares e preparar futuros ataques. As autoridades do Irão lembram-se bem de que esta guerra (como a de Junho de 2025) foi iniciada precisamente enquanto decorriam negociações com os EUA e por diversas vezes no último mês e meio fizeram questão de salientar que a administração norte-americana não é confiável. Nas reportagens televisivas das celebrações do cessar-fogo em Teerão vimos vários iranianos a alertar para o facto de EUA e Israel poderem estar a tentar ganhar tempo…

Que não haja dúvidas: como afirmou em 1964 na tribuna das Nações Unidas o revolucionário argentino-cubano Ernesto Che Guevara, «não se pode confiar no imperialismo nem um bocadinho, nada!». Tinha razão. Do “a NATO não avançará um milímetro”, de 1990, até ao cerco militar à Rússia consumado anos depois; dos compromissos de desarmamento do Iraque e da Líbia à destruição dos dois países; dos acordos de Oslo à carta branca para Israel cometer genocídio na Faixa de Gaza, o imperialismo é mentiroso, assassino e só pára se – e quando – for travado, como agora aconteceu.

Alerta e mobilizados, celebremos a resistência dos povos que mais uma vez nos mostra que o imperialismo não é invencível. Que a luta continua, isso é certo!



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