Ser livre, ser liberal
Num mundo em que pretendem que as aparências se sobreponham à realidade é por vezes fácil encobrir posicionamentos que, mais do que convergentes, são em muitos aspectos idênticos e coincidentes com os mesmos interesses de classe.
Apesar de ter passado despercebida a discussão que se realizou na Assembleia da República a propósito dos terminais rodoviários, ela não deixou de ser reveladora dos tempos que correm. Em causa está, como oportunamente tratou o Avante!, a estratégia da FlixBus para tomar conta do transporte rodoviário de passageiros no nosso País. Com dinheiro suficiente para, por via do dumping nos preços e da máxima exploração dos trabalhadores, destruir qualquer concorrente (como a UBER fez com o Táxi), esta multinacional pretende remover qualquer obstáculo à sua estratégia monopolista. E é este o contexto que motivou diversos partidos a apresentarem iniciativas na Assembleia da República que, fingindo ser em nome de uma suposta livre concorrência (no acesso aos terminais), na prática, constituíram um frete aos interesses desta multinacional.
O curioso (ou não!) é que os liberais desta vida não ficaram sozinhos. Também o Livre fez questão de se bater na AR pelos interesses da FlixBus com os mesmos argumentos e propostas. De tal forma que, se trocássemos os cabeçalhos das propostas da IL com o do Livre, não conseguiríamos encontrar a diferença.
O Livre e a IL são formações políticas relativamente recentes. Apesar de diferenças, partilham linguagem e conceitos que se integram sem qualquer atrito na ideologia ambiente. Disputam entre elas a sua fidelidade ao projecto da UE, das multinacionais e das grandes potências, incluindo na sua vertente militarista. Praguejam contra os “regimes” que se opõem ao imperialismo com a mesma veemência que vemos no exército de comentadores que todos os dias nos prepara para a guerra. E se uns assumem como projecto seu o regresso ao século XIX nas relações de trabalho – pacote laboral – outros, como o Livre, prestam-se ao papel de disfarçar a natureza do capitalismo, oferecendo os seus préstimos para o tornar mais aceitável.
Não são por isso de estranhar as naturais simpatias que se verificam no aparelho mediático sobre estas forças políticas. Dir-se-á que, cumprindo cada uma o seu papel, elas não só se complementam como fazem falta ao sistema. Claro está que falar de esquerda e direita nestas circunstâncias só serve para enganar quem se distrai.




