Faces da mesma moeda

Cristina Cardoso

Magyar saiu do partido de Orbán, o Fidesz

A União Europeia apostou muitas cartas nas eleições que se realizaram na Hungria, no passado dia 12. A alimentada, anunciada e propagada derrota do partido Fidesz de Viktor Orbán concretizou-se com uma expressiva vitória do partido Tisza, de Peter Magyar.

O alívio e o regozijo fizeram-se logo ouvir. Roberta Metsola, Ursula von der Leyen, Emmanuel Macron ou Luís Montenegro logo carregaram nas tintas sobre o papel que a Hungria joga na Europa, na “retoma do seu caminho [dito] europeu”, no “apego do povo húngaro aos [ditos] valores da União Europeia”… salvas de amor ao “projecto europeu” que se crê salvaguardado por estas eleições.

Até António José Seguro logo se afirmou confiante no papel que a Hungria irá desempenhar no reforço da dita cooperação europeia e no à Ucrânia. Agora sim, com este resultado eleitoral, a União Europeia parece certa de aprofundar o caminho da confrontação, com mais sanções à Rússia e o desbloquear dos 90 mil milhões de euros para prolongar a guerra na Ucrânia – a que a Hungria, juntamente com a Eslováquia, se tinham oposto no Conselho Europeu, em resposta ao bloqueio imposto pela Ucrânia ao acesso destes países à energia russa.

Orbán tornou-se nos últimos anos uma “pedra no sapato” nos propósitos belicistas da UE relativamente à Rússia, não porque não colaborasse ou partilhasse as políticas neoliberais e a deriva militarista da UE, incluindo de reforço das despesas militares ao longo dos anos. O que assistimos foi à defesa dos interesses de sectores do grande capital húngaro por parte de Orbán. Fidesz, de Orbán, é um partido que medrou perante o constante desrespeito pela soberania dos Estados e pelos direitos sociais a que a UE, e os interesses que defende, nos têm brindado ao longo de décadas. Mas perante a vitória de Magyar (que saiu do partido de Orban, Fidesz, e posteriormente passou para o Tisza, em 2024), que vem restaurar as relações entre esta e a Hungria, ainda estamos para conhecer o que significará de real mudança para o povo húngaro. Para além de que no que toca à guerra na Ucrânia, possam não ser favas contadas o total apoio às políticas da UE, Magyar tem um plano neoliberal que assenta na gradual privatização da segurança social, assim como de empresas estratégicas do Estado, no fim do sistema de preços regulados da electricidade e gás para as famílias, adoptando preços de mercado (alertando alguns que as facturas poderão atingir o dobro dos valores), entre outras medidas. A diferença entre um e outro talvez seja mais na forma do que em aspectos fundamentais do conteúdo da sua política. No essencial, parecem convergir na redução do papel do Estado na economia e no benefício dos grupos económicos.

Ao povo húngaro foram-lhe apresentadas e vendidas as faces de uma mesma moeda. Enquanto a UE celebra o regresso da Hungria ao “projecto europeu”, o povo húngaro vê o seu futuro ser jogado nos interesses do grande capital.

 



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