Terminais rodoviários

Manuel Gouveia

Alguns factos: os terminais rodoviários fazem falta. Mais ainda se forem rodoferroviários. É necessário que tenham condições (salas de espera, parque de estacionamento, informação de qualidade ao utente). E até hoje, IL, CH, PSD e CDS estiveram literalmente a marimbar-se para os terminais rodoviários.

Então, como explicar o súbito interesse destes quatro pelos terminais rodoviários? Pela simples razão de uma multinacional (Flixbus) estar a exigir do poder político português que levante as barreiras de acesso ao seu uso dos terminais rodoviários. E para esta malta, as multinacionais são quem mais ordena. E as leis já foram quase todas colocadas a seu favor, que para isso anda a UE a fazer pacotes de liberalização uns atrás dos outros desde os anos 90.

Falam nas maravilhas da concorrência, e usam-na como desculpa para abrir todas as portas à multinacional, mas a realidade é que estão a construir um sistema onde as empresas nacionais deixam de ter possibilidade de concorrer e são forçadas a serem subcontratadas pela multinacional. E onde a oferta encolhe ainda mais se o Estado não aumentar – e muito – o financiamento do sistema.

Os mesmos que recusavam qualquer apoio à Rodoviária Nacional, hoje apoiam o derrame de bem mais de mil milhões de euros anuais a apoiar o transporte rodoviário privatizado. Andamos a financiar autocarros que concorrem com os comboios que também financiamos, a financiar lucros em vez de garantir aumentos de oferta, a construir um inferno ineficaz de contratualizações e subcontratações e regulações e assessorias jurídicas e tribunais arbitrais, quando o que fazia falta era um sistema articulado, planeado e eficaz de transportes públicos.

As liberalizações são como a banha da cobra. Quando se ouve o vendedor, parece o Santo Graal da medicina. Quando se toma, só faz é mal.

 



Mais artigos de: Opinião

Que linda é a Festa do Avante!

Esta semana tem lugar a acção de afirmação da Festa do Avante!, com dezenas de acções de divulgação por todo o País. Faz, em 2026, 50 anos que a Festa do Avante! se realizou pela primeira vez, em 1976, na FIL e, a partir daí, iniciou um percurso, não isento de dificuldades, em que, com...

Faces da mesma moeda

A União Europeia apostou muitas cartas nas eleições que se realizaram na Hungria, no passado dia 12. A alimentada, anunciada e propagada derrota do partido Fidesz de Viktor Orbán concretizou-se com uma expressiva vitória do partido Tisza, de Peter Magyar. O alívio e o regozijo fizeram-se logo ouvir. Roberta Metsola,...

Nem um bocadinho, nada!

(É possível que este texto já esteja desactualizado quando for publicado, pois a realidade move-se depressa por estes dias, mas o essencial é intemporal) Na madrugada de 8 de Abril, a horas do fim do “ultimato” – mais um! – a que se seguiria o desaparecimento de uma “civilização inteira”, EUA e Irão anunciaram um...

Conversetas de ocasião

As conversetas que o Governo PSD/CDS vem promovendo com a UGT e com as organizações patronais, procurando avançar quanto possam no ataque aos direitos dos trabalhadores, revelam três ou quatro elementos que não é demais sublinhar. O primeiro decorre do facto de a CGTP-IN ter sido afastada destas mal ditas negociações,...

Ser livre, ser liberal

Num mundo em que pretendem que as aparências se sobreponham à realidade é por vezes fácil encobrir posicionamentos que, mais do que convergentes, são em muitos aspectos idênticos e coincidentes com os mesmos interesses de classe. Apesar de ter passado despercebida a discussão que se realizou na Assembleia da República a...