Para lá de Cristina Ferreira
Já muito se disse sobre a forma inaceitável como Cristina Ferreira, apresentadora da TVI e administradora da Media Capital, se referiu à violação de uma jovem de 16 anos por quatro indivíduos que agora começaram a ser julgados. Mas convém, ainda assim, assinalar três elementos:
- a direcção da TVI reagiu às críticas com arrogância, ameaçando processar meio mundo, acusando quem criticou de ter um discurso de ódio, assumindo uma reveladora distinção entre “violação” e “sexo sem consentimento”. Errar toda a gente erra. Mas esta é a arrogância de quem acha que quer, pode, manda e ai de quem se atreva a questionar. Reveladora também da superficialidade com que certas pessoas com responsabilidades falam de tudo e a todo o tempo, incluindo sobre o que não conhecem, reflectindo o empobrecimento cultural e democrático que se vai impondo no espaço mediático.
- as ideias retrógradas, os preconceitos, as manipulações, a ofensiva ideológica, às vezes são mais visíveis nos noticiários e nos debates classificados como políticos. Mas não é só aí que estão. Há programas de entretenimento, a todas as horas do dia e da noite, dirigidos a todos os públicos (é pensar no impacto da “Casa dos Segredos”), que propagam concepções, normalizam comportamentos, promovem personagens – alguns deixaram de falar de futebol ou crimes para terem outros papéis, como André Ventura ou Susana Garcia. Não é por acaso e não têm impactos menores nas consciências.
- a ideia de que há uma nova geração de rapazes machistas, violentos, manipulados pela extrema-direita, é simplista e perigosa. É verdade que há forças poderosas a promover valores retrógrados e a normalizar as violências contra as mulheres, particularmente junto da juventude. Mas daí a assumir que toda uma geração é assim ou assado, que os rapazes são de direita e as raparigas de esquerda, que todos os homens são agressores e todas as mulheres são vítimas, é preconceituoso e estigmatizante – além de desistir do combate por e com estes jovens.




