Colbert e a síndrome de ditadura monopolista
O cancelamento do programa de Stephen Colbert, o famoso Late Night Show, é o último sintoma da síndrome de ditadura monopolista nos EUA. O despedimento de Colbert foi, tecnicamente, um suborno: o canal CBS silenciou as críticas inconvenientes do humorista liberal à administração Trump e, mais recentemente, à decisão do grupo Paramount, que detém a CBS e o Late Night Show, de pagar ao presidente uma indemnização de 16 milhões de dólares; em contrapartida, Trump, que celebrou publicamente o despedimento, autorizou a fusão da Paramount com a Skydance num gigantesco monopólio de comunicação social de conservadorismo conglomerado e monolítico onde nem as opiniões dos liberais têm lugar.
É tudo escandalosamente declarado, explícito. Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações da Casa Branca, uma espécie de ERC dos EUA, celebrou confirmando ao que vem: «O Presidente Trump está a atacar os media das fake news e o Presidente Trump está a ganhar. Vejam os resultados: a PBS [televisão pública] perdeu o financiamento. A NPR [rádio pública] perdeu o financiamento. A Joy Reid [apresentadora de televisão crítica de Trump] foi despedida. O John Dickerson [jornalista] foi despedido. O Colbert está de saída. A CBS tem novos donos e dentro em breve a CNN também vai ter novos donos».
Não são festejos vãos: 2026 está a ser um ano vertiginoso na concentração de grupos de comunicação social em mega-monopólios. Após a fusão da Paramount com a Skydance, já aí vem a fusão da Paramount Skydance com a Warner Bros. Discovery, colocando sob o controlo de David Ellison, bilionário aliado de Trump, a CBS, a MTV, a Paramount+, a CNN, a HBO, os Estúdios Warner Bros, o Discovery, etc.
Os exemplos são às mãos cheias: em Março, a Nexstar fundiu-se com a Tegna, criando um monopólio de televisões locais que chega a 80% dos lares estado-unidenses com a visão do mundo de Perry Sook, outro bilionário totalmente alinhado com Trump.
Em Janeiro, um grande consórcio dominado pela Oracle, também da família Ellison, comprou as operações do TikTok nos EUA por 14 mil milhões, alargando o domínio político do grande capital trumpista à fatia de leão das redes sociais: Instagram, Facebook e Tiktok.
A lei natural do capitalismo é a tendência para a concentração de muito em poucas mãos, já sabemos, mas a fusão dos grandes grupos tecnológicos com monopólios de produção cultural e conglomerados de comunicação social ameaça inaugurar um quadro qualitativamente e quantitativamente novo. É a concentração dos meios materiais que requer uma proporcional concentração espiritual, só possível através da fusão dos aparelhos de divulgação de ideias, cultura e informação com os grandes meios de formação da opinião, conhecimento e consciência humanas, os algoritmos, as televisões, os jornais, o cinema, a arte, encurtando brutalmente o já curto espectro de dissensão, crítica e diversidade com que o capitalismo ocidental parecia tolerar.




