A luta a que José Casanova se dedicou é mais necessária do que nunca
Faleceu José Casanova
Comunistas assim nunca partem

O desaparecimento de José Casanova, destacado dirigente do Partido Comunista Português, constitui uma perda imensa para o colectivo partidário. Prosseguir o combate que foi o seu é a melhor homenagem que se lhe pode prestar.

A morte de José Casanova provocou grande consternação e tristeza em todo o colectivo partidário, habituado a vê-lo como uma referência de convicções, um militante dedicado, um dirigente capaz e experimentado, e um excepcional ser humano. Ao longo dos anos, nas mais variadas tarefas que assumiu e nas múltiplas reuniões, plenários, sessões e iniciativas em que participou revelou toda a sua capacidade política e ideológica e cativante personalidade.

A firmeza de princípios, a imensa cultura, o discurso claro e acessível (por mais complexo que fosse o tema abordado), a confiança inabalável no trabalho colectivo e o sentimento que colocava no dia-a-dia da sua actividade revolucionária eram características de José Casanova que o tempo não apaga. Fica a recordação dos que com ele privaram e aprenderam, as centenas de artigos publicados no Avante! e os livros que escreveu – que revelam tanto da luta dos comunistas como da sua personalidade.

E fica, sobretudo, o Partido Comunista Português, ao qual dedicou o melhor das suas imensas capacidades e energias e cujo reforço político, ideológico e organizativo constituiu uma preocupação constante da sua vida. O mesmo Partido a que chamou, no seu romance O Caminho das Aves, a «grande casa da amizade».

Pelas cerimónias fúnebres, realizadas no fim-de-semana, passaram milhares de pessoas: familiares, amigos e camaradas – a grande maioria – mas também representantes de organizações sindicais e políticas, autarquias, clubes e colectividades. À direcção do PCP e à redacção do Avante!, que dirigiu durante 17 anos, chegaram inúmeras mensagens de condolências, individuais e colectivas.

A melhor homenagem

Em nota emitida no sábado, o Secretariado do Comité Central do PCP endereçou as condolências à família de José Casanova e lembrou os mais relevantes aspectos da sua biografia pessoal, política e cultural, realçados também por Jerónimo de Sousa no discurso que proferiu no funeral, junto ao caixão coberto com a bandeira do Partido (ver caixa). Nessa nota, o Secretariado releva que José Casanova nos deixa «a sua intervenção dedicada como militante e dirigente do PCP nas mais diversas tarefas e responsabilidades e a sua sensibilidade e contribuição no plano cultural. A melhor homenagem que lhe podemos prestar é prosseguir a luta do seu Partido de sempre, o Partido Comunista Português, ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País, pelo ideal e projecto comunista».

Foi com esta determinação que os amigos e camaradas que no final da tarde de domingo (já noite cerrada) fizeram transbordar a alameda principal do cemitério do Alto de São João, em Lisboa, se despediram de José Casanova. As lágrimas, os soluços e as vozes embargadas conviveram com os punhos cerrados, as palmas e os vivas ao PCP, pungente expressão de sentimentos mistos: a perda de alguém que nos é querido, por um lado, e a determinação e o empenho em honrar o seu exemplo e a sua memória prosseguindo a luta a que dedicou toda a vida, por outro.


Jerónimo de Sousa no funeral de José Casanova
Um percurso que a morte não apaga

Aqui estamos para prestar a justa e devida homenagem ao José Casanova. Para a Cândida, para os filhos Catarina e Miguel, a mais sentida palavra de pesar ainda que sabendo que palavras não há para preencher o vazio que o José Casanova lhes deixa, mas também a este imenso colectivo de camaradas e amigos que habituou à sua inesquecível presença.

Aqui viemos hoje, não para nos despedirmos de um camarada, mas para afirmar que embora partindo do convívio com os seus camaradas, os seus amigos e em particular com a sua família, o José Casanova estará presente em todos e em cada um dos muitos momentos que nos reunirão para continuar os combates e a luta que ele sempre abraçou. Deixou de estar entre nós um homem bom, um amigo solidário, um combatente antifascista e construtor de Abril, um comunista. Mas o seu percurso de vida, de militante e dirigente do PCP perdurará em todos e em cada um de nós para prosseguirmos a luta de emancipação social que o animou.

Resistência, luta, cultura

Natural de uma terra de lutadores que inscreveram o Couço num dos mais emblemáticos locais de resistência contra a opressão e a iniquidade do regime fascista, Casanova que bem cedo aderiu ao PCP tem o seu percurso de vida ligado à luta pela liberdade e a democracia. Com 19 anos iniciou a sua participação na União da Juventude Portuguesa tendo integrado a sua direcção.

Assumiu como jovem comunista, nas candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, papel destacado tendo desempenhado diversas tarefas partidárias no País nas décadas de 50 e 60 do Século passado. Preso pela PIDE em 1960, julgado e condenado a dois anos de prisão, Casanova permaneceu cerca de seis anos detido tendo passado pelas cadeias do Porto, Caxias e Peniche. Exilado na Bélgica no início da década de 70, aí prosseguiu a actividade partidária tendo sido presidente da Associação dos Portugueses Emigrados na Bélgica e mantendo contactos com os movimentos de libertação das ex-colónias.

Com o 25 de Abril, José Casanova regressa a Portugal para prosseguir no nosso País a luta. Membro do Comité Central desde 1976 e da Comissão Política de 1979 a 2008, José Casanova foi, entre outras tarefas, responsável pelas Organizações Regionais de Lisboa (entre 1989 e 1996), de Santarém (em 1997 e 1998) tendo ainda, no início dos anos 2000 tido a responsabilidade pelo acompanhamento das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. José Casanova foi director do Avante!, órgão central do PCP entre 1997 e Fevereiro deste ano. Era actualmente responsável pela Comissão Nacional de Cultura.

Participante activo no exaltante processo de transformação social que a Revolução de Abril constituiu, José Casanova esteve associado às muitas batalhas, tarefas e luta que, primeiro no processo revolucionário, depois na resistência ao processo contra-revolucionário, mobilizaram o Partido, os trabalhadores e os democratas. Participante desde a primeira hora na Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril ainda na década de 70, Casanova integrou a Comissão Coordenadora da FEPU e da APU tendo desenvolvido um importante papel no trabalho unitário e de convergência com muitos outros democratas.

Homem de imensa cultura, aquela cultura que se ergue de uma vivência inseparável do pulsar do que de mais genuíno brota da incomparável sabedoria dos trabalhadores e do povo de onde vinha, José Casanova deixa-nos também a sua produção no campo literário com os romances «Aquela Noite de Natal», «O Caminho das Aves» e «O Tempo das Giestas», bem como outras obras, nomeadamente o livro sobre Catarina Eufémia, recentemente editado.

O projecto continua

José Casanova honrou, pelo seu exemplo e dedicação, pelo seu espírito de militância e capacidade política, pela sua intervenção e entrega à luta, as melhores tradições da classe operária, dos trabalhadores e do povo português.

Uma opção que nestes tempos difíceis em que querem impor um futuro de declínio e retrocesso social ao País e a Portugal ganha redobrada importância.

Hoje, como em poucos outros momentos, a luta em que com o Casanova participámos em defesa dos valores de Abril, pela ruptura com a política de direita pela construção de uma alternativa e uma política patrióticas e de esquerda assume particular e decisiva importância. Uma luta para afirmar direitos que com Abril conquistámos, para dar combate à exploração capitalista que lança para o empobrecimento e para a emigração centenas de milhares de portugueses, para devolver aos jovens o direito de poder ter futuro no seu País, para libertar Portugal da submissão e da dependência.

Essa luta sem tréguas que continuamos a travar para abrir caminho a um Portugal com futuro, para combater falsas alternativas, para ampliar a consciência sobre os reais problemas e responsáveis pela situação a que o País foi conduzido, para alargar a convergência dos democratas e patriotas na afirmação de um Portugal desenvolvido e soberano, tendo o socialismo no horizonte. Muitos, entre outros objectivos de luta, que com o Casanova partilhámos e que saberemos estar a altura de lhe poder dizer, num futuro mais ou menos próximo, «conseguimos Zé»!

Aqui estamos, não para lhe dizer adeus, mas até sempre, neste reencontro de todos os dias na luta que nos unirá. Com a profunda convicção de que a sua morte não apagará um percurso de vida marcado pela inteira dedicação à luta pela liberdade, a democracia, o socialismo e o comunismo.

Homens e comunistas assim não morrem.

O José Casanova sabia que o seu Partido de sempre, o seu projecto, o seu ideal, iria prosseguir para além das nossas vidas!

Perduram em cada um de nós neste combate que nos une, na luta que continua.

Até sempre, camarada José!




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