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Gil Vicente
O regresso do mestre
500 anos depois




Gil Vicente critica a sociedade e ao mesmo tempo diverte o público com toda a naturalidade e espontaneidade, focando os mais diversos temas. É, sem dúvida, o mestre do teatro português. 500 anos depois, marcará presença no Avanteatro.

Pouco se sabe sobre a vida de Gil Vicente. Terá nascido em 1465 ou num ano próximo, encenou a sua primeira peça em 1502, colaborou no «Cancioneiro Geral» de Garcia de Resende, teve a função de organizar as festas da corte e recebeu tenças e prémios de D. João III.

Em vida, o dramaturgo publicou alguns autos em folhetos de cordel, tendo uma parte sido proibida pela Inquisição. Outra informação interessante: com uma autoridade socialmente reconhecida, em 1531, a propósito de um terramoto que abalou Portugal, Gil Vicente censurou severamente os sermões terríficos dos frades em que estes defendiam que a catástrofe era um castigo de Deus.

Mas, se os dados biográficos são escassos, o estudo da obra vicentina é extenso. Vivacidade, traços de modernidade e diversidade de fontes, estruturas e tonalidades são algumas das características dos autos de Gil Vicente.

O dramaturgo não parece ligado à tradição do teatro religioso medieval, nascido em parte das representações litúrgicas do Natal e da Páscoa. Inicialmente o seu trabalho bebe mais a um poeta palaciano castelhano, Juan del Encina, imitando a sua linguagem e a sua língua. É isso que explica que os seus primeiros pastores não falem o português rústico, mas o saiaguês, um dialecto semicastelhano e semileonês.

Ao longo do seu percurso literário, Gil Vicente vai enriquecendo as suas formas e repertório integrando novos elementos, alguns deles tradicionais, como o sermão burlesco e as imitações jocosas de actos religiosos. Ao mesmo tempo adopta novas formas teatrais criadas no estrangeiro, como a fantasia alegórica de Torres Naharro, e passa a estilizar a realidade nacional, com os pastores a falarem a sua linguagem comum e as personagens a abordar os problemas e desejos dos espectadores.

Do pouco que se conhece sobre as encenações do mestre, sabe-se que as peças eram representadas no chão, tendo mais tarde passado para um estrado, onde eram instaladas as barcas, as fráguas, as estalagens e todos os décors necessários. Os espaços simbólicos eram assinalados por cortinas e outros meios. Não está provada a existência de uma companhia profissional de actores, embora os especialistas considerem que seria necessária uma certa permanência e treino do elenco em períodos de intensa actividade cénica.

Retrato de um país

António José Saraiva e Óscar Lopes dividem as peças vicentinas em autos pastoris, teatro religioso, farsas (onde se inclui «Romagem de Agravados»), autos cavaleirescos e alegorias de tema profano. No entanto, as características destes tipos de peças vão-se misturando em toda a obra, com o auto pastoril a entrelaçar-se à moralidade e a fantasia alegórica de tema religioso a tocar na de tema profano. Para aqueles autores, o auto alegórico é o que melhor representa a concepção vicentina de teatro.

Os autos de Gil Vicente não procuram apresentar conflitos psicológicos, como acontece no teatro clássico. Trata-se de um teatro de sátira social e um teatro de ideias. Por isso não há caracteres individualizados, mas entes personificados e tipos sociais que agem de acordo com a lógica da sua condição: por um lado, o Diabo, os Anjos, a Alma e os heróis de cavalaria e, por outro, o Pastor, o Camponês, o Escudeiro, a Moça, a Alcoviteira e o Frade, entre outros.

Na obra vicentina temos o retrato do Portugal quinhentista, gravando as mentalidades, os desequilíbrios, as injustiças, as ambições e as relações sociais, no conjunto de uma sociedade simultaneamente camponesa e cosmopolita, provinciana e cortesã.

Estilisticamente, os autos vicentinos oscilam entre uma expressão gótica coerente e uma acumulação de elementos heterogéneos. Há, pois, uma desintegração do gótico, sem que se registe uma composição convergente para a figura humana.


«Romagem de Agravados»

Em «Romagem de Agravados» – a peça que será apresentada na Festa do Avante!, datada de 1533 –, Gil Vicente usa pequenos quadros, enquadrados em alegorias profanas. A caminho de uma romaria passam camponeses, fidalgos, freiras e clérigos, mostrando os seus vícios típicos em diálogos e monólogos, numa relação íntima entre a ficção alegórica e o conteúdo da peça.

Esta tragicomédia será exibida ao ar livre, como se de uma romaria se tratasse, num percurso que será acompanhado por uma banda de música. O espectáculo inicia-se como uma procissão popular e termina na presença de Frei Paço, depois de percorrido um longo caminho.

A sátira social é constante. Um frade, na ambição de se tornar bispo ou prelado, defuma-se com palha amarela para aparentar um rosto descorado provocado por jejuns e mortificações. Uma mulher queixa-se que os funcionários régios apenas agem segundo os seus interesses. O lavrador é quem suporta a pirâmide social de parasitas e ociosos, uma personagem «cuja voz acusadora tem acentos comoventes», segundo António José Saraiva e Óscar Lopes. «Trabalha até à exaustão, sem tempo sequer para limpar as gotas de suor. O produto do trabalho é-lhe arrancado pelos cobradores de rendas ou pelos frades. Na igreja escorraçam-no como um cão», resumem os autores.

As personagens queixam-se de Deus, do rei, da clausura, da infidelidade, da prepotência e da pobreza, mas, como resposta, Frei Paço apenas lhes pede que tenham paciência e aconselha-os a encherem-se de alegria e esquecerem as mágoas.

A imagem plástica da procissão é inspirada na obra «As Tentações de Santo Antão», de Hieronymus Bocsh, pintor contemporâneo de Gil Vicente.

«Avante!» Nº 1497 - 8.Agosto.2002